Terça-feira, Janeiro 02, 2007
Segunda-feira, Janeiro 01, 2007
Ainda não me tinha lembrado que se calhar estou morta
Ainda não me tinha lembrado que se calhar estou morta. Ainda não havia pensado nesta possibilidade, nem mesmo quando falei com o Marco sobre o Verão passado, sobre o modo como nos conhecemos e depois concluímos que devíamos ter morrido no momento em que dissemos olá, pois a partir daí tudo o que nos aconteceu foi sempre demasiado perfeito e coincidente, como num sonho. Talvez seja o que me aconteceu agora. Voltei a morrer. Voltei a entrar noutra dimensão, assim como quando eu e o Marco e o Vilmo demos um passou-bem pela primeira vez e caímos ao chão, numa realidade, e continuámos a andar sem dar por nada, na seguinte. Talvez morrer seja isso, como eu e o Marco pensámos na primeira tarde da nossa conversa de três mil anos. Talvez passemos constantemente de uma vida para outra, sem nos apercebermos, ou notando apenas algumas coisas estranhas, em grande parte reveladas nos sonhos. Coisas demasiado subtis ou que estamos demasiado habituados a ignorar. Coisas que passam despercebidas na rapidez desalmada com que vivemos os nossos dias, na descrença em relação ao nosso instinto, ao nosso inconsciente, e a tudo o que não se pode provar facilmente, ou que apenas se sente. O Saul zangava-se comigo cada vez que eu falava destas coisas, na dimensão anterior. Replicava:
- O que é que isso interessa? Isso não vai tornar toda a gente vegetariana, nem vai mudar o mundo!
E eu não conseguia explicar-lhe que uma grande expansão da consciência universal poderia causar o milagre que ele esperava antes da auto-destruição do planeta. Eu não conseguia explicar-lhe que há coisas quase impossíveis de explicar, mas que se sentem e nas quais residem talvez outras soluções para juntar às acções directas dos guerreiros da liberdade. Eu não conseguia explicar-lhe que o amor e a arte são tão revolucionários como o ódio e a guerra. Ele dizia-me:
- Não há tempo!
Talvez não. Nunca chegámos a um entendimento. Ele odiava os humanos e a irrealidade. Eu amava o amor e os sonhos.
Segunda-feira, Dezembro 25, 2006
Domingo, Dezembro 24, 2006
A minha mãe está cada vez mais doente
A minha mãe está cada vez mais doente. Não quer ir ao médico. Diz que não quer descobrir que tem qualquer coisa horrível. Ela e o Luca vão mudar-se para um quarto no hotel onde eu trabalhei no Verão, e a Luna vem comigo para um centro de abrigo durante o fim de semana, e depois para uma casa de freiras no meio do Bairro Vermelho. Estou assustada. Sinto-me terrivelmente sozinha e a minha vida parece uma anedota, um pesadelo, um filme dramático. Mas, simultaneamente, a magia não cessa. A sorte acompanha-me, estranhamente acompassada com o acaso e com os limites do abismo. Sigo um rumo inconsciente que parece já estar traçado, e deixo-me flutuar. Mas tenho medo. Uma espécie de pânico incrédulo e indefeso. Deixo-me flutuar porque não posso fazer absolutamente mais nada. E assim, ao mesmo tempo, no meio de um vazio assustador, sinto uma paz de loucura. Na última noite antes de ter que sair de casa do Carel, ando com a Priscila aos berros pelas ruas escuras, ambas a cantar It’s a wonderful world, do Louis Armstrong. Parecemos duas adolescentes felizes e embriagadas, despreocupadas, alegres. Mas carregamos nos ombros pesos invisíveis do tamanho do mundo.
Sábado, Dezembro 23, 2006
A minha mãe está doente
A minha mãe está doente, não sabe o que tem nem quer saber. Só sabe que tem medo. O Verão está quase a terminar e os dias estão frios. O tio do Carel mandou-lhe uma carta a dizer que se nós não sairmos do prédio em quinze dias chama a polícia.
- Tens que ir para Portugal e levar a Luna. –diz a minha mãe. - Tens que pedir ao teu pai que te ajude.
- Nem penses. – respondo-lhe. – Quando saí de casa foi para nunca mais voltar.
- Então pede ao Romão que te ajude. Ele é o pai da Luna.
- Também o deixei a ele. Não volto atrás.
- E nesse caso vais fazer o quê, podes dizer-me?
- Não sei.
- Eu e o Luca vamos viver no hotel onde tu trabalhaste, não temos dinheiro para tomar conta de ti e da Luna, tu já não nem tens emprego, como é que te vais sustentar?
O meu estômago contrai-se e os meus olhos começam a ficar cheios de lágrimas. Viro-lhe as costas sem lhe responder. Desço as escadas e saio. Faz um sol morno de princípios de Outono, e olho para a minha longa sombra enquanto caminho sem destino, ao longo do canal ao fim da rua. Hoje não tenho dinheiro nem para comprar fraldas para a Luna. As lágrimas saltam-me dos olhos e tenho que me sentar na entrada de um prédio com a cara escondida entre os braços. Choro. Não sei que mais fazer. A Priscila também foi despedida porque acabou o Verão e não há turistas. Ela vive em quartos de hotel com o namorado e não me pode ajudar. A minha mãe está doente e assustada, o Luca não tem dinheiro para comermos. O Carel não consegue convencer o tio a deixar-nos ficar no prédio. E então ouço:
- Hello, beautiful girl, why are you crying?
Olho para cima e vejo dois viciados em heroína a sorrirem-me com um ar interessado.
- I don’t have money to buy diapers for my baby.– respondo-lhes.
- Oh, don’t worry, we can help you! – dizem-me. – We can take you to a hospital, they will give you some diapers! Wanna come with us?
- OK. – aceito, e levanto-me. Eles sorriem-me, contentes não sei bem com o quê. Devem ser os dois viciados em heroína mais felizes e energéticos que já vi. Levam-me até à Estação Central, onde apanhamos o metro sem pagar. Saímos quatro paragens depois, em Wibautstraat, e andamos um pouco até ao hospital. Eles entram, comigo atrás, sem perguntarem nada a ninguém e põem-se a percorrer corredores como se fossem enfermeiros. Levam-me à secção dos bebés, e então encontram uma enfermeira pelo caminho e pedem-lhe fraldas. Ela olha-nos com um ar um tanto indefeso, e diz:
- I’m not sure I’m suppose to give you diapers, you know?
- Yes, - diz um dos toxicodependentes – but our friend needs them for her baby, she has no money, you can help us, can’t you?
Então ela vai buscar umas cinco fraldas e dá-nos, ainda pouco convencida.
- Now please go away. – pede.
- Thank you! – agradecem os toxicodependentes, e saímos dali. – Now let’s get more diapers at some other hospital!
Eu sorrio finalmente nesse dia, e digo-lhes:
– I think this will be enough for today. Tomorrow my mother’s boyfriend will have some money for shopping.
- What about food? Are you hungry? Do you have food for your baby?
- I have food for Luna, but I could eat something.
- So come with us, beautiful girl, we’ll take you to a place where you can eat!
- OK.
E desta vez apanhamos um eléctrico, também sem pagar. Levam-me até uma rua onde nunca estive, com um grande graffiti da cara de uma mulher numa parede. Andamos uns cem metros e entramos num centro social, onde há mais gente com ar de toxicodependente ou de sem abrigo, sentada em sofás ou nas mesas por ali espalhadas. Há uma televisão na parede a transmitir a MTV. Atrás do bar perguntam-me se quero café ou chá, e quantas sandes. Peço uma sandes de queijo e um café com leite e açúcar. Os meus dois amigos viciados em heroína dizem-me que vão andando e desejam-me boa sorte.
- Thank you very much for everything! – agradeço-lhes.
- It’s fine! A beautiful girl like you shouldn’t cry! – responde-me um deles, e vão-se embora.
Fico a comer o meu pão com queijo, e a olhar para a televisão. Começa a dar um vídeo dos Guns & Roses. Eles cantam “Don’t you cry tonight, there’s a heaven above you, baby!” e eu volto a ter vontade de chorar, porque penso que aquela música toca naquele momento especialmente para mim.
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
Quinta-feira, Dezembro 21, 2006
Micanopy
A Sea preparou o chá e bebemos. Explicou-me que aqueles cogumelos não sabiam tão mal como os outros, mas eu nunca comera nenhum. O chá tinha um sabor predominante a mentol. Depois partimos no descapotável laranja para o pântano. Pelo caminho comecei a sentir–me mole e feliz, e as cores do dia e dos objectos, das nossas roupas e cabelos, de toda a paisagem, tornaram-se mais apelativas, como se antes nunca tivesse reparado devidamente nelas. A Sea guiava, eu ia com ela à frente, e o Sand estava sentado atrás. Quando olhei para ele os seus cabelos esvoaçavam com a velocidade do carro e com o vento, e ondas de cor amarela libertavam-se deles e ficavam a pairar no ar, por cima da estrada, até desaparecerem na distância. Ri-me. Depois imaginei que viajámos dentro de uma abóbora, a qual se deslocava rapidamente a caminho de outra dimensão, soltando um rasto laranja. Não tive muito tempo para me aperceber do que se estava a passar. Senti que entrávamos noutro mundo, que sempre existira à nossa frente, mas o qual não se revelava se não lhe prestássemos a devida atenção. Um mundo paralelo ao nosso. A dimensão em que vivem as crianças e as fadas. De dentro do mais profundo ser do Sand emergiu uma criatura bela que me fez lembrar um elfo, e os cabelos da Sea tornaram-se azuis por cima do seu vestido feito de mar. As cornucópias e flores do meu lembraram-me que eu fora em tempos uma bruxa japonesa da floresta, com longos cabelos negros, que agora retomava ao momento. E a abóbora deslocava-se rapidamente com nós os três lá dentro. Depois o Sand pôs os óculos escuros e havia algo de mosca nele. Uma mosca loura. Porque não? A própria Sea podia perfeitamente ser uma borboleta de tons azuis e asas transparentes, e eu uma espécie de besouro coberto de folhas e flores. Todos a viajar numa abóbora. Fazia perfeito sentido.
Quando chegámos ao pântano o tempo parou de repente, e a Sea e o Sand mexiam-se demasiado rápido, cada vez mais como se de insectos se tratassem. Então senti-me um tanto perturbada e confusa, sem calma suficiente à minha volta para me aperceber do desenrolar dos eventos. O Sand reparou no meu ar imóvel e perguntou-me:
- How do you feel?
- Please stop moving so fast. – pedi-lhe. E depois ri-me e exclamei: - You look so much like a fly!
- Oh, shit! – comentou ele, sorrindo. – You’re already tripping!
E por essa altura eu já não conseguia parar de rir. Tudo me parecia hilariante. A expressão semi-sorridente do Sand com uns enormes olhos de mosca, a Sea a vir ter comigo com o seu vestido cheio de ondas a rebentarem em espuma e os seus cabelos emaranhados como se fossem algas, a nossa abóbora estacionada e cansada daquela viagem tão rápida através das dimensões e eu, confusa e desejosa de uma pausa para o entendimento no meio da velocidade dos acontecimentos, sem conseguir parar de rir ou ter qualquer poder de decisão.
- Are you feeling OK? – perguntou-me a Sea.
- Everything is too fast! – respondi-lhe. – And, at the same time, so slow!
- It’s all right, Lara. – disse-me. – Just enjoy it. We’re all together. You’ve just entered another perception. It’s beautiful, don’t you think?
Disse-lhe que sim e deixei de me preocupar com os ritmos alterados e com a necessidade de controlar fosse o que fosse à minha volta ou dentro de mim, mesmo o facto de continuar a rir, sozinha, sem já saber porquê. Tudo estava bem. Pegámos na cesta que a Sea preparara com fruta e água, e afastámo-nos da nossa abóbora a caminho do pântano.
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
Tive agora a sensação muito forte de que já vivi este momento
- Tive agora a sensação muito forte de que já vivi este momento.
- Quando?
- Não sei, talvez nunca, talvez a sensação seja de que este momento é suposto acontecer.
- Estou a ficar arrepiada, Laura!
- Não tenhas medo, Alice. É uma sensação boa, como se esta noite fizesse parte de uma história maior.
- Como as histórias dos nossos livros?
- Sim, como se o teu livro da levitação e meu livro nuclear já tivessem sido escritos, assim como tudo sobre a Lista E e o Festival da Paz.
- Por quem?
- Não sei. Talvez por nós, por outros, pelo Michael Ende.
- Não estou a perceber.
- Eu também não percebo completamente, mas não é preciso, porque a sensação é tão forte!
- O que é que sentes?
- Sinto que já vivemos este momento, ao mesmo tempo em que o estamos a viver, e que o vamos viver novamente.
- Como se o passado, o presente, e o futuro fossem só um?
- Talvez. É como uma espiral que gira, gira, e nunca tem fim.
- E deixa-me tonta.
- Mas não faz mal, pois não temos que pensar sempre nisto. E sabes o que é o melhor de tudo?
- O quê?
- É que como a nossa história está sempre a ser reescrita e revivida, nós próprias podemos modificá-la.
- Então porque é que não somos felizes?
- Acho que é por causa do Nada.
- E o Nada é o quê?
- É o medo.
- Será que o medo é preciso?
- Talvez seja, para que os homens entendam como é importante viver.
- E o que é que sentes mais?
- Sinto que há uma pequena janela que se abriu um pouco, e por onde posso espreitar e ver coisas lindas que normalmente não conseguimos distinguir.
- Tais como?
- Tais como alguém que escreve a nossa história, não sei quem, mas que já sabe o que vamos dizer porque já o dissemos antes.
- Quem? - Não consigo ver, Alice. Mas esse alguém sabe o quanto nos amamos, e o quanto nos odiamos. Sabe tudo o que se passou até agora, e tudo o que se vai passar a partir daqui, porque tudo já aconteceu!
- E esse alguém observa-nos?
- Sim, está connosco neste momento, a sentir o mesmo que nós, e também já viveu isto antes.
- Então o meu livro já está escrito?
- Já, mas tu vais escrevê-lo outra vez, porque também já está escrito que o vais fazer, porque esta é a nossa própria História Interminável.
Encosto-me para trás na cadeira e toda a minha pele se arrepia. Fico a olhar para o que acabei de escrever, estupidificada. O meu estômago contorce-se, e volto a sentir o mesmo que senti na cozinha da Laura, há tantos anos. Excepto que agora percebo ao que ela se referia, e a sensação é mais forte ainda. Ela falou-me, naquela noite, simultaneamente, em todos os tempos. A pessoa que estava connosco, que escrevia a nossa história e sabia tudo o que ia acontecer, porque tudo já tinha acontecido, era eu. Sou eu agora, ao descrever a nossa conversa, e sou eu que sei tudo o que se vai passar a seguir, porque tudo já aconteceu. A Laura descobriu um buraco no tempo, e falou comigo do passado para o futuro, e no presente dos dois tempos em simultâneo. Foi por isso que sentimos, então, que descobríramos algo magnífico, e que a espiral infinita das histórias intermináveis nos atordoou e encheu de uma qualquer beleza misteriosa.
A partir daí comecei a desconfiar que vivíamos todos os tempos sincronicamente, e que quem me observava era a eu a mim própria, do futuro para o passado, quando recordava a minha imagem sentada à beira do lago enorme e pantanoso, de cabelos ao vento, a sentir-me observada. Percebi que a história do meu primeiro livro começara realmente em frente a esse lago nórdico, quando ouvia Pink Floyd através dos auscultadores portáteis, e me lembrava do Roque numa aula da segunda classe, e dos meus desejos numa tarde de sol. Aquela música, The Gunners Dream, relatava o momento exacto que eu vivia. As memórias desciam através das nuvens para me encontrarem, e no espaço entre o céu e a esquina de um campo estrangeiro, eu tive um sonho. Um sonho que se realizou a partir desse momento, mas numa dimensão diferente da desejada. E, se reparamos bem, talvez seja isso que acontece com todos os nossos desejos.
Quarta-feira, Novembro 30, 2005
MOJAVE
A Mara e o Kiro vão buscar-me ao aeroporto. Ele tem o cabelo rapado em certas partes da cabeça e noutras não, para o filme que está a fazer com o Sand. Parece um louco. Mas como é bonito até um penteado destes lhe fica bem. A Mara veste umas calças de algodão justas às flores e uma camisola de malha branca por cima. Dizem-me que o Sand vai ter connosco ao deserto, e metemo-nos no jipe do Kiro.
A festa começou, ao que parece, à tarde. O Sand já lá está e alguém nos diz para o procurarmos perto da piscina. Pelo menos não há muita gente, a casa não parece um palácio, e a música não está tão alta como de costume. Não há ninguém a servir bebidas. Parece ser uma reunião mais calma. O Sand vê-nos e vem ao nosso encontro. Beija-me e agarra-me num abraço longo, depois pega em mim ao colo e faz-me girar no ar. Está drogado. Olho para a Mara e ela faz-me sinal de que não há problema. O jantar é estilo self service e tenho fome, por isso vou ver o que se pode comer. O Sand não me larga e vai comigo para todo o lado. Encho um prato com salada e lasanha vegetariana, e tiro champanhe do gelo. Depois vamos sentar-nos ao pé da piscina. A Mara e o Kiro desapareceram. Como e sinto-me menos cansada, e o champanhe começa a fazer efeito. O Sand vai buscar mais. Depois pergunta-me se foi bom ter confiado nele quando tomámos os cogumelos alucinogénios. Respondo-lhe que sim. Então diz-me que agora tenho que confiar nele outra vez, e dá-me um comprimido verde claro.
- What’s this? – pergunto-lhe.
- It will make you feel good. – explica-me.
- I don’t like drugs so much, Sand, you know that. – digo-lhe.
- How do you know you don’t like them if you don’t try them? – replica.
- But what is it?
- It’s an upper.
- I don’t want it. – digo, devolvendo-lhe o comprimido.
- Please, Lara, do it. Why can’t you trust me? Do you think I’d ever give you anything that would hurt you?
- No, I don’t. – respondo.
- So what’s the problem? Let’s just have fun together!
Pego no comprimido e ponho-o na boca. Depois dou dois golos no champanhe e espero não me arrepender. Ele sorri e diz-me:
- Welcome to my little world of wonder!
Toca The Doors, e não pára de chegar gente à festa. Começo a ver caras conhecidas, cada vez mais, e penso que preferia não estar ali. No entanto as pessoas estão calmas, embora sorridentes, e a música está bem escolhida para a ocasião. A Mara e o Kiro voltam, agarrados, divertidos, também a beber champanhe, que parece ser a bebida da noite. Sentam-se ao pé de nós e outras pessoas vêm dizer-lhes olá. Reconheço um rapaz que já vi várias vezes em filmes com o Sand e com a Mara. Faz-me lembrar o Jonas. Tem uma voz cativante, e o seu sotaque agrada-me. Fuma um charro de erva que daí a pouco me vem parar à mão.
- Careful. – avisa. – It’s strong stuff. – engasga-se. – From Amsterdam.
- Thanks. – agradeço.
- My name is Corry. – apresenta-se.
- I’m Lara. – sorrio-lhe. Já sabia o seu nome. Fumo um pouco do charro, depois passo-o à Mara, que me manda um beijo pelo ar e também está drogada. Começo a sentir umas contrações agradáveis no estômago, e encosto-me ao Sand, que me agarra enquanto fala com o Kiro. Este último está com um ar cada vez mais alucinado. Eu fico com uma súbita vontade de falar, e peço um cigarro ao Corry. Ele diz-me que não fuma, só charros, mas que tem pena, porque acha que fumar deve ser óptimo.
- So why don’t you start smoking? – pergunto-lhe. E outro rapaz, lindíssimo, que também conheço dos filmes e está sentado ao lado do Corry, oferece-me um cigarro.
- Oh, thank you so much! – digo-lhe, com um grande sorriso, e as contrações no estômago são cada vez mais fortes, especialmente quando ele me acende o cigarro e começo a fumar.
- My pleasure. – responde o rapaz, com a sua voz meio rouca.
- Because, I don’t know. – diz o Corry, ainda sobre os cigarros. – I just never did. I guess ‘cause I also find it kinda stupid.
- Well, it’s really nice. – digo-lhe.
- Yeah, right now especially. – acrescenta o outro rapaz, que de seguida se vira para mim e se apresenta:
- I’m Kris.
- I’m Lara. – digo-lhe. - Good to meet you. – depois acrescento, olhando para o Corry e apreciando o cigarro que fumo:
- Although smoking is stupid.
- I think you should try it. – opina o Kris.
- You should. – digo ao Corry.
- Line? – pergunta uma miúda, que deve ter uns quatorze anos e é mais famosa do que todos eles juntos. Trás consigo um espelho com o que penso serem algumas linhas de cocaína, preparadas para cheirar. O Sand responde-lhe: - Yeah! – e pega no espelho. A rapariga senta-se, passa-lhe um pequeno cilindro de metal, e ele utiliza-o para cheirar uma linha. Depois passa o espelho à Mara.
- Thanks, Darla! – agradece o Sand. Ela ainda se parece muito com a menina que era no filme que a fez famosa. Sorri e é realmente bonita, tem uma cara rechonchuda e uma boca de bebé. A Mara cheira uma linha e passa-me o espelho. Eu agradeço, mas digo-lhe que não quero.
- Please, Lara. – pede-me o Sand ao ouvido. Estivémos sempre agarrados, enquanto ele falava com o Kiro e eu com o Corry e com o Kris.
- But I feel fine. – respondo.
- I have an idea! – diz o Corry.
- What? – pergunto-lhe, sorrindo e terminando o meu delicioso cigarro.
- If you take a line, I’ll smoke a cigarette!
- Seams like a good deal. - concorda o Kris.
A Mara sorri e pisca-me o olho:
- It’s cool, Lara.
- All right, I’ll do it. But what is it?
- Coke. – responde-me o Sand.
Inalo uma linha e a sensação no nariz é fresca. A cocaína cheira a remédio. O Kris dá um cigarro ao Corry, este põe-no na boca, fica com um ar tremendamente sensual, e eu passo o espelho ao Kiro, que também agradece, mas não quer. Então devolvo-o à Darla, e ela está a acender o cigarro do Corry, a rir-se, e a dizer:
- You definitely look good with it in your mouth!
A sensação de frescura da cocaína começa a descer pela minha garganta, e o meu nariz parece ficar dormente. O Corry também cheira uma linha. Peço outro cigarro ao Kris. Ele dá-me, e digo-lhe que quero ser eu a acendê-lo porque me apetece mesmo acender um cigarro.
- Sure, Lara, never worry. – e passa-me o isqueiro.
- Thanks, Kris.
Acendo o cigarro e sabe-me ainda melhor que o outro. Pergunto ao Corry:
- How’s yours?
Ele responde-me:
- Delicious!
- Just like mine. – concordo.
Terça-feira, Agosto 23, 2005
No último dia da conversa dos três mil anos
No último dia da conversa dos três mil anos temos que devolver o vídeo do Waking Life até às sete horas. Faz sol e vamos deitar-nos em Waterlooplein, no largo em frente ao prédio da ópera, numa espécie de arena sem propósito definido.
- How do you fly in your dreams, Marco? – pergunto-lhe.
- I start going up, until I reach the sky, and then I wake up. – responde-me. – Just like the guy in the film. It’s like I loose contact with gravity, you know? And you?
- I swim in the air. – digo-lhe. – I jump from high places and then move my arms and legs as if I’m in the water. Do you think the guy in the film woke up in the end?
- Yeah, and died!
- I personally think he was dead already.
- Yeah, it could be. But he didn’t know it.
- So you think when he woke up from the dream he finally realized he was dead?
- Yeah, I guess. Have you ever thought that the sky, in this case, is just like the surface of the sea? Just like when we’re swimming and being pulled up?
- Wow! I never thought of that!
- Me neither! But it’s true, isn’t it?
- Yeah! And have you ever thought that Amsterdam is under water, and constantly surrounded by clouds? It’s the absolute dream land! Everything makes so much sense, doesn’t it?
- Sure does! And the more we talk and think about it the more coincidences we keep on finding! It just never stops!
- But where does it take us?
- I have absolutely no clue.
- Do you think if we woke up from this dream we would die?
- I think maybe we’re already dead, and that’s why all this is happening.
- Oh, that would be an explanation!
- Yeah, maybe we died when we met. I mean, after that it all started getting stranger and stranger, right?
- Yeah! Maybe we just collapsed at the door from the cantina when we said hello for the first time and walked straight into another dimension without noticing it!
- It could be! It would explain why everything is so much like a dream lately!
- That’s it, we’re dead! – digo.
- Yeah!
Um amontoado de serpentinas passa por nós, rolando na estrada, e vai agarrar-se a uma árvore, com o vento a bater-lhe. Uma mãe empurra a filha num carrinho de brincar com umas grandes rodas, entram na arena onde estamos sentados, e parece que começam a desaparecer pelo chão.
- Alice, it’s too much! – diz o Marco. – It just goes on and on and on, doesn’t it?
- Yeah, it’s even too fast! We don’t have the time to notice everything!
A arena tem a forma de um anel gigante, o qual parece ter caído e paralisado a meio do movimento giratório antes de pousar no chão, e a mãe e a filha voltam a surgir na parte baixa, após terem estado encobertas pela parte elevada. Quando me mexo, outro amontoado de serpentinas, igual ao que passou por nós há pouco, desprende-se repentinamente das minhas costas e eleva-se com grande velocidade no ar até bastante alto. Eu assusto-me e dou um grito.
- Wow! What happened? – pergunta o Marco.
- The shreds were stuck to my back and when I moved they flew away!
Ficamos os dois maravilhados a olhar para as serpentinas coloridas, que voam cada vez mais alto pelo céu , até se perderem de vista.
- Amazing! – diz o Marco.
Ouvimos bater as seis e meia na torre de uma igreja, e lembramo-nos que temos de ir ao clube de vídeo. Quando saímos de lá sentamo-nos novamente ao sol, à porta. Reparo que ambos vestimos T-shirts brancas.
- Let’s go get some money and have dinner at the cantina! - sugiro.
- OK.
Levantamo-nos e dirigimo-nos para a caixa automática mais próxima, que fica em Waterlooplein. Ainda há bastantes objectos abandonados pelo chão do mercado hippie. Objectos e roupas em segunda mão, que não se venderam e podem ser reciclados. Avisto uma carta de jogar, virada de costas para cima, e apanho-a. O Marco olha para mim para ver o que estou a fazer, e eu encosto a carta à perna, sorrindo, e digo-lhe:
- Guess!
Ele responde: - The queen of… - e faz com os dedos o gesto dos ouros. Viro a carta e é a Dama de Ouros. Nenhum de nós se apercebe de que ele acertou. Eu imagino que para além da dama também há uma rainha, e ele não percebe muito de cartas. Comento:
- Close!
Mas depois ele diz:
- Wait a minute! That’s it! That’s the card I said!
E eu apercebo-me que ele tem razão.
- Yeah, it is!
- Fucking hell! Alice, how many cards are there in the packet?
- About forty, I think…
- And I guessed which one this was!
- Well… I’m not even surprised anymore, Marco! I mean, are you?
- I’m shocked! – responde. – Aren’t you?
- Yeah… no, I don’t know! I mean, if we believe that we’re living in some kind of a dream, and so being that we can do anything we want, then this is just a confirmation! And now you’re surprised? What about all the rest?
- But this is just too much, don’t you think?
- Not really.
- Fucking hell! - continua ele a dizer. Depois levantamos dinheiro e voltamos a passar pelo mercado. Há um monte de roupas e objectos abandonados pelo chão, e o Marco avista algo cor de rosa.
- What is that? – pergunta ele, desviando-se da nossa rota para ir admirar e apanhar o objecto descoberto. Trá-lo em direcção a mim e continua a perguntar:
- What is this?
Trata-se de um brinquedo, um mini-ginásio para Barbie’s, com uma daquelas bicicletas sem rodas, apenas com pedais, para o treino das bonecas. Respondo-lhe, sem hesitar:
- That’s a time machine.
- You think so?
- I’m quite sure. – respondo. – What model is it?
- I don’t know...
- Let me take a look. – peço-lhe. – Oh, I see, it’s an FFG0203.
- Yeah, a Fun Fun Gym, I see it too. How does it work?
- Well, you have to stick your finger in that ring, and then roll the pedals. I’m not sure it’s working, though, sense it was thrown away.
- Yeah. Let’s try it, anyway.
- OK.
Mas nada parece acontecer. Seguimos para a universidade, e encontramos duas máquinas de lavar roupa brancas, uma ao lado da outra, abandonadas no passeio. Ficamos a observá-las durante um bocado, a abrir as portas e a carregar nos botões. No canal passam dois cisnes brancos, e paramos a admirá-los da ponte. Finalmente entramos pela porta da esplanada da universidade, e só quando chegamos à cantina nos lembramos que é sexta-feira, e que esta fechou mais cedo. Então saímos pela outra porta, a da entrada principal, e quando chegamos à rua o Marco exclama:
- This is where we died!
E percebemos que a máquina do tempo afinal funciona perfeitamente, e que nos transportou de volta ao momento em que morremos.
Segunda-feira, Agosto 22, 2005
Segunda-feira, Março 14, 2005
The whole place was creepy
The whole place was creepy, aristocratic you could say, and then, finally, of course, the big mirror on the wall. It was just so predictable, you know, when I was saying goodbye to you, and she was looking at me, through the mirror, and smiling at me, and me at her. It’s not even surprising anymore. When I look at the poster I see us, obviously - I see us all, really. In the movie, if I look closely, I see even more of us. And when I look at the poster I see her, and she’s me, simultaneously, and I’m you, and you’re him. Yeah. I’m so sure if I showed you the poster and told you the names you’d know just what I mean.
TEN TINY TALES
When I arrived to
‘I’m Mauro’ said one.
‘And I’m also Mauro’ said the other.
I took off my sunglasses and wiped my tears, hoping it wasn’t too obvious that I had been crying, and they didn’t seem to notice it. We spoke for a while, and they told me they were in
Late at night I couldn’t fall asleep, and didn’t understand why. All I knew was that I was feeling terrible, and my body desperately wanted to get back to
The next morning my soul had arrived. Laura and I spoke the whole afternoon - when she finally felt awake and hungry - and in the evening we went for dinner. When we passed the main square Laura met a friend, and while they were talking I set again on the same bench. Almost immediately, I heard some voices speaking Portuguese next to me, and I looked to see if they were from the two Mauro's. They weren’t. So I didn’t say anything. And then I heard:
‘
I looked a bit surprised at the guy who was looking at me, wondering what was happening and why was he guessing my name. He rephrased:
‘Are you
I said yes. He introduced himself:
‘I’m Adilson’
I didn’t get it. And then the other guy introduced himself too:
‘And I’m also Adilson’
I finally laughed. The first Adilson said they had been trying to find me, because the Mauro's had told them that I was sad. I didn’t mention anything about my SOUL DELAY.
We stopped by a restaurant bar on the way to Pag, and I went in to use the toilet. There was a little table next to the normal tables, and all around it a group of stuffed rabbits and hares were sitting down, playing A MAD CARD GAME.
‘CAN I SMELL YOU?’ this girl asked me, not knowing me at all, and I just laughed and told her that I stank too much to be smelled. But she smelled me anyway and said I had a lovely smell. Then she grabbed my foot and gave it a big sniff. She kept on sniffing my feet through the day every now and again.
In GAJAC there are big black fat insects lying on the sidewalks, dead under the sun. They don’t manage to cross over during the day because it’s too hot.
Yesterday we went to A BEACH ON THE MOON. The hills around it were totally white and it was somehow odd to see the ‘other’ Moon in the sky. However, at the same time, it made perfect planetary sense. Dana asked me, when we were going down hill, which book I was reading at the moment, but right after that we started talking about something else and I never answered him. Only later, when we were lying on the white stones of the lunar beach, I took my book out of my bag and told him that it was Life, The Universe and Everything. He smiled and mentioned:
‘By Douglas Adams? It’s the third time I speak about that book on this beach. There must be some kind of connection’
When the Sun slowly set down, the water became as white as the rest of the landscape. Edo and I saw two goats walking down the dusty white hills, one of them as white as the land itself, and the other one black, and then we went to visit a couple of donkeys we had spotted in a field nearby. The first one - apparently older – made us a very eloquent speech as soon as we approached it. It had the sweetest eyes.
Laura says she DREAMS OF SONGS. She says she actually composes them in her sleep. Dream poetry is apparently common.
Marco says:
‘I’ll enter your pet project and become an evil e-mail’
Laura sings:
‘Sorry, get a job, I’m so beautiful. Sorry, get a job, I’m so hysterical’
I write:
‘A big grape complex of instability’
Laura sings:
‘Every time I go into the distance, everywhere I go, I come into resistance, everywhere, that’s where I go’
Shine talks:
‘We’re the swimming society’
Laura sings:
‘When the soul takes off, we’re just women, only women’.
THE MYSTERIOUS PULA STORY is the one that Maya will never tell.
Laura and
‘Ask the driver’
The driver was just standing near the cleaning lady, and when they asked him about the bus, he replied:
‘Ask the ticket lady’
Then the driver said:
‘I don’t think there is a bus’
And
‘But it says so here on the schedule; there should be one at nine-fifteen’
The bus driver replied:
‘Then there must be one’.
I feel like some kind of mermaid, early in the morning, making FISH CONTACT, rising sand underwater with my feet, creating tiny storms so that the fish will come and see what’s happening. They come in colors and the sand toned ones slide under the storms, getting closer and closer to my feet, trying not to be noticed. The striped ones come straight at me, and the tiny ones bite my legs shamelessly. It gets scary at some point, when I start getting surrounded, and then I giggle and go.
Some moments are so holy that I can’t help myself and have to giggle in some kind of ecstasy. Laura,
At night bats were flying and dancing around me under the sky full of stars, as I was walking all the way home in the middle of the road. They flew above my head back and forward, all the way until the lamps were gone.
Sexta-feira, Março 11, 2005
SAND
Nunca me senti tão apaixonada em toda a minha vida. Durante a primeira semana que passei na quinta o Sand levou-me a passear de carro todos os dias até sítios bonitos, e falámos interminavelmente sobre tantos assuntos, que nem todas as pessoas que conheço juntas e todas as conversas que tive com elas me ensinaram mais. Numa manhã húmida de sol intenso, deitados num campo perto de um lago pantanoso, a olhar as nuvens brancas espalhadas pelo céu, ele contou-me as razões da sua filosofia vegetalista. Brincava com a minha mão, e explicava-me como amava os animais, o planeta, os rios, a natureza.
- And people? – perguntei-lhe. Sorriu-me, mas depois virou novamente a cara para cima e respondeu:
- People scare the shit out of me.
- Why, Sand?
- Because they have no conscience.
- But it’s getting better, don’t you think?
- In some ways yes, but in other ways we’re self destructing.
- Is that why you’re vegan?
- Yes. It’s one of the things I can do to respect the animals on Earth, preserve the fields and the natural cycles, praise and give good karma to this beautiful and perfect planet.
- Isn’t it natural to eat meat, though? – pergunto.
- I guess so, for some tribes in the desert, in Africa, in South America, who live of hunting and away from civilization. But they cherish and respect the animals that feed them, and they don’t eat too much meat, only what they need. They say prayers of thanks when they catch a prey. They thank the animal for its meat. Over here, we’re supposed to be civilized, and animals are no longer beings, they’re products for consumption. It’s very easy to separate the ham from the cow. You don’t question where it came from, how it was made, how did the cow live and die. Did you ever look in the eyes of a cow? They’re the sweetest thing, the most curious and tender animals, so big and yet so kind.
- So you never ate meat in your whole life? – pergunto. – Nor your siblings?
- Nope! Don’t know what it tastes like. Don’t need it either. Remember how fat I was when I was a kid?
- You were not fat… - respondo.
- I wasn’t skinny either. And my siblings were always very strong. My parents never believed in all that bullshit about humans needing meat to grow or whatever. Nor do I. As long as we eat all the protein and minerals we can find in vegetables, we’re healthier than a meat eater. No heart diseases, no animal fat, no animal killing for our ignorance.
- I think I’d miss eating meat if I stopped it for good, though.
- You probably would, ‘cause you’re used to it. But you’d probably feel much lighter and relaxed, too.
- I already do! – comento. – Somehow everything seems simpler. No meat, just vegetables and cereals, just a feeling of harmony that I can’t really explain. It’s quite amazing, but I don’t really understand it.
- I think it’s the release of bad karma. – explica.
- How so? – pergunto.
- Well, did you ever think that animals suffer when they’re killed?
- Yes. – respondo.
- But did you really think about it? - explica. - Or even that they suffer while they’re still alive?
- No. Not while they’re alive. Why?
- Because they don’t live a free life, they’re prisoners and suffer from this. And then they’re killed and their meat contracts from fear and pain. And then you eat their nervous and contracted meat, which brings bad energy and bad karma into your body.
- I see. – digo.
- Maybe that’s why you feel peaceful now.
- Maybe. This is too much information for me right now. – comento. – It makes sense, but I need some time to think it over and make up my own mind about it.
- You still have some time! – diz, com um sorriso simpático. – You have as long as the planet is able to recycle our mistakes.
E depois deita-se em cima de mim, os seus cabelos louros com cheiro a flores caem na minha cara, e os seus lábios finos e belos beijam os meus.
MORFEU AND THE ENDLESS DIMENSIONS
This time I became tired of my dreams even faster. Not that I didn’t like all those things I imagined, and everything was really very exciting, but the fact that it was all taking place only in my mind, left me quite a lot to desire for. I needed to move, couldn’t do the things that I used to do anymore, and so I got stuck with the same problem as before. I needed to do something more real. And then the most brilliant idea I ever had came to my mind. I would write down my daydreams. I would write a whole book if I had to, and make my dreams come true on paper.
I spoke to my father and he bought me a typewriter. He was really happy just to see me get off my bed and sound excited about something for a change. I had become quite witchy looking again, not combing my hair and all dressed in black skirts and jumpers, always wearing my army boots, and my father couldn’t believe his older son had left the house and the younger ones were constantly looking like vampires. My brother Levi had long hair by then, and also wore black clothes and army boots. We enjoyed looking dark and miserable, although he was happy with his fairy looking girlfriend, and most of the time they were stoned or something.
This is how I became a writer at fourteen, and how I realized that my dreams and the older girl that I was in them were actually quite real, and that they were me. I mean, give yourself the possibility of doing anything you wish, having anything you want, back or forward in time, and you will find out who you really are. All the rest is just a bunch of circumstances that you didn’t choose for, and you just had to adapt to them, so that’s not really who you are. I also realized that my dreams already existed in my mind for so many years, that I had in fact been living that parallel life all the time. Therefore, all I had to do was write down a sort of diary of things that had already happened, most of them anyway, but at the same time were just being created by the tips of my fingers. I felt like some kind of goddess, reconstructing my own life and those of those around me, as I was describing to the minimum detail events that had never really happened. All these discoveries were so exciting and made me so happy that I wished I didn’t have to go to school and could spend all my time writing. It was so much more interesting to spin my head around with the meanings of reality, dreams and parallel words, than to go to biology and chemistry classes. Somehow, however, I kept on being a relatively good student, because somehow, I guess, everything was mysteriously connected. Although I wished I could already be studying philosophy and literature, I had to admit that mathematics had some kind of magic to them, and everything seemed to fit. How could I ever relate to my colleagues? If I told them ‘Oh, you know, mathematics are magical’ they would never speak to me again. So why bother?
In my book I told the story of Roque, as well as the story of Morfeu, Sand and Oto. I took revenge of all the bad luck I had had in my real life. Roque was my boyfriend until I met Morfeu, and fell hopelessly in love with him. This had to happen, because Roque would die anyway, so I needed to find a reason for him to start smoking heroin. When my parents got divorced, I was eighteen, and went to Florida to live in a farm with Sand and his hippie family. I met all the famous Hollywood teenagers of the Eighties while I was there, and I studied American literature in the meantime. Roque died when I was still in America. Then I also left Sand.
For a while I wasn’t very sure about Roque dying. After all, I wanted so badly for him to be alive, that it seemed stupid to let him die twice. But otherwise, how would I ever meet Oto? And then I realized that I was writing only one story, and that I could actually write as many as I wished. In this story Roque would die and I would meet Oto, but in other stories I could be with Roque forever, or with Oto forever, and my parents didn’t have to separate, or I could live with my mother. I didn’t have to choose, for all my wishes could come true and all the stories could be told, as they were already happening anyway. So I decided that I would fall in love with that boy in school with the green eyes, that I found so pretty however so silly. Only he was different in my book, for we had met in other circumstances, and we were older. His name was Morfeu and he had freckles all over his face.
I also told the story of Alice, for she kept smiling at me behind the mirrors, and appearing in my dreams. She was friends with Sara, and with the older sister of Fausta, my brother’s fairy girlfriend. Her older sister was called Laura, and she looked like a little hippie, with curly long hair, and long purple skirts. I only really saw her once, but she made a cool impression on me. In my book Sara was, of course, my best friend, as well as my brother Marco, and the fact that Levi was now my little brother was amusing to me. I spent the whole summer writing at my grandmother Olga’s house, in the south of Portugal. My grades had been good, so my father was happy and I could do whatever I wanted to. My mother wanted me to visit her in Holland, but I didn’t want to. I would write outside, under the trees, and would imagine that I was in Florida, at the hippie farm where the Summer’s lived, while Sand himself was in Los Angeles, shooting his new film. I felt happy. I would write on the beach, sometimes, with my sunglasses on. I must have looked, as always, like a little miss weird.
When school started again, late October, I was still quite tanned and healthy looking. In my book I had already left Sand, Roque had died, and I had just met Oto. Everybody wanted to read my writings, but I wouldn’t allow it. I would tell them they could all read everything once it was finished and published, and they weren’t amused by this. Pérola tried her best to be my friend, and her best was really very good, because she was an intelligent woman, not too friendly or anything, just really smart, and I have to admit, damned beautiful. However, I was still taking plenty of refuge at my grandmother Matilde’s house, and now that Marco was living there, that place felt much more like home than my actual home. Levi spent most of the time at Fausta’s place anyway, and I didn’t like babies. My new sister Eva was sweet, but I didn’t know what to do with her. She would stare at me with her big bug eyes, and although when she smiled at me it was heartwarming, when she didn’t it was just boring. She was already talking and all, but she wouldn’t say anything coherent. Sara was by then living at Noel’s place, with him and Oto and Andresa, and two other guys I didn’t know very well. They were having all kinds of adventures and taking quite a lot of drugs, so they were smart enough to exclude me from this period of their lives. Although I thought they didn’t like me anymore, they did, and Sara would still visit me sometimes, and hug me and kiss me like before, but she was just busy with her own discoveries. Anyway I didn’t mind the distance much, because I was busy as hell with school and being a writer. My new profession required a lot of concentration and solitude, and I really loved being alone in my room since early morning, drinking tea and typing away, still wearing my cozy autumn pajamas. Or going down to my grandmother Matilde’s house, and write in the living room while she was netting away. My great grandmother Ema had died already, some years before, so my grandmother Matilde really enjoyed my company. And the portable typewriter that my father had given me was the best present I had ever received.
Sara told me about her experiments with cocaine and ecstasy pills, and I included these stories in my book. After all, she was my best friend, so I had to be living the same adventures as her. She told me that those drugs and friends were opening doors and windows in her life, and showing her things that she never imagined existed before. All the stories from the books and the films were true. Drugs did open the doors of perception. I understood what she meant, I guess, because I felt myself as some kind of Alice in Wonderland, who had fallen down the rabbit whole, and found this new and magical world where everything was possible. My door had been my typewriter, and I don’t think I had ever felt so happy before. I had found some kind of cosmic entrance, and I could perfectly relate to the feelings that Sara was describing to me. Everything was just a big puzzle waiting to fit. And then Sara also told me she was pregnant. I don’t know why she told me all of this, apparently she hadn’t even spoken to Andresa about it, much less to Oto, but I guess she needed someone to talk to who wasn’t really a part of it. So she told me. Later on she decided to have an abortion, because she knew she wasn’t ready to have a baby, and she said it didn’t hurt a bit, because she was rich enough to have it done well in some private clinic.
Autumn was at its peak, and the streets of my neighborhood were covered with bright yellow leaves, while the trees were practically naked. It looked as if it had snowed, only huge and beautiful yellow leaves. We could barely see the side walks, and I loved kicking the leaves wile walking, to make them fall again all over me. I looked, of course, very weird while I was doing this.
That night I went for dinner at my grandmother Matilde’s house, with my brother Marco and his boyfriend Néri. My grandmother obviously thought they were mere best friends, and Néri even slept there sometimes. I bet she never for once imagined they had a different kind of relationship. Or maybe I would be surprised if I knew what she imagined.
My brother and Néri were the ones cooking that evening, and I was watching TV while my grandmother was netting as usual. The eight o’clock news started on channel one, and I was distractedly looking at the screen. Then I saw Sand’s picture, and I heard the 911 recording of his brother’s voice asking for help, telling them to please hurry because Sand wasn’t breathing. I stood up and couldn’t believe my eyes and my ears. My grandmother looked at me and asked me what was going on, but I didn’t even answer. The reporter added that Sand’s death seemed to have been caused by a mix of drugs. Cocaine and heroin. He had collapsed at the door of some club in Los Angeles, after he had left a Halloween party with his brother Sun and his sister Sea. I started crying, and my grandmother almost had a fit herself. She got up and asked me:
‘O que foi, minha querida?’, holding me and looking very worried. My brother and Néri heard this and came into to the living room to see what had happened. I told them a friend of mine had just died, and they didn’t understand what the hell I was talking about.
After that I couldn’t write for a long time. I felt sad and confused. Why did these things keep happening to me? Impossible passions, people dying, separations. I didn’t know Sand, that’s true, but he was in my book, he was in my dreams, and it really felt as if I had lost a friend.
I couldn’t write for weeks. The rainy season had started and I would go for walks under my umbrella, watching the drops of rain fall on my army boots, and thinking. Alice kept on being there, every time I looked over a puddle or at the windows of cars. She was still smiling her sadness away, but she no longer scared me. Or I just wasn’t afraid of being crazy anymore. I concluded that we define ourselves what it means to be crazy. So I decided that I was as sane as an apple. And I thought that if I hadn’t lost my touch for writing once I was done with my first book, I should start another one just about Alice.
Ainda não me vi ao espelho
Ainda não me vi ao espelho. Sinto-me estonteada, esqueço-me do que aconteceu há cinco minutos, como se fosse um peixe. Depois lembro-me:
- Sonho.
Mas este não acaba. Posso controlar tudo o que faço, decidir, escutar-me nitidamente, cheirar. Belisco-me e claro que me dói. Lembro-me que naquele filme chamado Waking Life, onde a personagem principal não conseguia acordar de um sonho, e onde não era possível acender ou apagar luzes, pois nos sonhos os interruptores nunca funcionam. A minha mãe arruma as minhas coisas e eu vou até à porta do quarto tentar acender a luz. Pressiono o interruptor e a lâmpada explode. A minha mãe solta um grito. Eu encolho os ombros.
- Claro. – comento, de mim para mim.
- O que fizeste, filhota? – pergunta-me a minha mãe.
- Nada. – respondo-lhe. – Quis acender a luz, mas a lâmpada devia estar velha.
- Acender a luz com este sol? Para quê?
Mas não lhe respondo. Em vez disso pergunto-lhe se podemos ir embora.
- Sim, preta, o teu pai já vem.
- O meu pai?
- Sim, o teu pai chegou ontem à noite. Está muito preocupado contigo.
- Chegou de Portugal?
- Não, Lara, chegou do Texas. Mas não te preocupes, dentro de uns dias já te vais lembrar de tudo.
Sinceramente, o que me interessa a mim lembrar-me de tudo, se tudo não passa de um sonho persistente? Tanto me faz que o meu pai tenha vindo de Portugal, como do Texas, como da China. É-me indiferente. Quando acordar, nenhum pormenor fará grande diferença, e vou passar um dia inteiro a descrever tudo isto no meu livro dos sonhos. Agora talvez seja melhor aproveitar o reencontro, ainda que virtual, com a minha mãe. Entreter-me a fazer perguntas a todas as personagens irreais que falam comigo. Talvez consiga voar. O pior é este enjôo na cabeça. Piso algo no chão que estala. São vidrinhos. O que estão vidrinhos a fazer no chão? Depois lembro-me da lâmpada que explodiu.
Quinta-feira, Março 10, 2005
O Shine vive
O Shine vive, como na outra vida, no armazém naval ocupado, em frente ao grande canal que separa Amesterdão Norte de Amesterdão Sul, e à ponte que leva à ilha de Java. Pensei que nesta irrealidade ele talvez ainda vivesse com os pais. Mas não. Saiu de casa aos dezoito, tal como na outra existência, e foi morar na Marnixstraat, mais ou menos na altura em que eu encontrei o apartamento na Binnen Vissers, segundo me conta ao pequeno almoço. O Daniel existe. O Shine diz que estive com eles na manifestação contra a guerra do Iraque, a dançar samba. Que estive com eles na ocupação do armazém, faz agora mais ou menos um ano. Que nadei com eles no grande canal, que fizemos churrascos no telhado do enorme prédio, que vieram os bombeiros ver onde era o fogo, e que depois ficaram ali a beber cerveja connosco e a apreciar aquela vista maravilhosa. Que trabalhei atrás dos bares nas festas e concertos das caves iluminadas por velas do armazém, que ouvimos Johnny Cash à volta duma fogueira em frente ao grande canal, na noite do Solstício de Verão, e que depois levámos os colchões para o telhado do armazém, e ficámos a falar até ao nascer do Sol do dia mais longo do ano. O Johnny Cash morreu nesse Verão. O Shine diz que foi comigo a Portugal, diz que ficámos em casa do meu irmão Marco, na Penha de França, e que o meu primo Rio voltou para casa da minha tia Nela, para nós podermos ficar no quarto dele. E que, um ano antes, fomos visitar a família dele ao Tenessee, com os pais, com o Kite e com a Agate, e que fomos ao Texas, a uma cidade chamada Austin. Conta-me tudo isto, e eu não me lembro de nada, a não ser do que fiz também na outra vida. Mas gosto que ele me conte o que supostamente vivi neste sonho, visto que é a única maneira de saber quem sou. Pergunto-me se terei diários, para que possa descobrir-me sem ser através das memórias dos outros.
Tenho diários. Ontem os meus pais trouxeram-me a casa pela primeira vez. Ainda não acordei. Passou uma semana desde que despertei no hospital e os meus dias têm sido um mar muito agitado de descobertas incessantes. Sinto-me como uma extraterrestre, embora viva no mesmo planeta que antes. Tenho todos os meus amigos para conhecer, e a mim própria, aos meus pais, à minha irmã, às minhas paixões, à minha casa. A campainha não pára de tocar, e cada visita é uma aventura interminável. Gostava de não ter de comer nem de dormir, para poder ler todos os meus diários, ver todas as minhas fotografias, falar com todos os meus amigos, telefonar ao meu irmão, ir trabalhar, ir ao médico, ir a casa dos meus pais e dos pais do Shine, a casa da Camila e ao hotel ocupado onde vive a Silvana. Parece que vou ficando cada vez mais perplexa com o decorrer dos dias. A surpresa e a confusão não passam, pelo contrário, aumentam. Apenas as tonturas passaram. Não sonho durante as noites. Durmo profundamente e não recordo nada para além de uma grande escuridão. Antes sonhava quase sempre, escrevia livros e livros cheios de sonhos que tinha durante as minhas noites místicas. Sonhava que voava, sonhava com o Shine, com o Saul, com a Silvana, com o nome do Marco. Chamava sempre o seu nome a outra pessoa, por engano, embora soubesse perfeitamente que estava enganada. Na maior parte dos meus sonhos vivia com todos os meus amigos. Com a Camila, com o Vilmo, com muita gente. Por vezes tínhamos que fugir de alguém que nos queria matar. Quase todas as noites sonhava que vivíamos juntos. E que voava. Nadava à rã pelo ar, por cima de campos com flores ou por cima do mar e de grandes precipícios. Agora esse meu mundo noturno simplesmente desapareceu. Mas, ao que parece, também sonhava neste sonho, pois encontrei livros de sonhos que escrevi antes do acidente. Não consigo, no entanto, encontrar nenhum dos meus livros sobre a Lara e sobre a Alice. Nem o primeiro sobre os tempos do liceu, nem o segundo sobre o Roque, nem o terceiro sobre Amesterdão, nem o quarto sobre o futuro. Se ficar neste sonho muito tempo, posso voltar a escrevê-los. A Verónica, pura e simplesmente, não existe. A psiquiatra dos rastas louros e compridos diz-me que tenho um distúrbio da despersonalização, e que este se caracteriza por uma percepção distorcida da identidade, do corpo e da vida, e pela sensação do mundo ser irreal ou ser um sonho. Explica-me que este distúrbio é o terceiro sintoma psiquiátrico mais comum a seguir à ansiedade e à depressão, embora tenha sido pouco estudado isoladamente. Diz-me que ocorre normalmente após o indivíduo passar por um perigo potencialmente mortal, tal como um acidente, um assalto, uma doença, ou uma lesão grave. Os sintomas tanto podem ser temporários como persistirem ou retomarem durante muitos anos. Podem surgir juntamente com ansiedades e pânicos, ou serem ajustados e até bloqueados de modo a perderem o impacto. Podem atormentar-me ao ponto de eu sentir que enlouqueço, ou podem simplesmente desaparecer sem qualquer tratamento. Receitou-me calmantes, e a continuação das consultas com ela e com os seus rastas absolutamente irreais. Disse-me que preciso manter-me o mais serena possível, devido a todas as coisas que o meu cérebro acredita estar a conhecer pela primeira vez, e que me estimulam e confundem demasiado. Eu disse-lhe que vou continuar a acreditar em mim própria, e a ter a certeza de que estou a sonhar. Ela respondeu-me que desde que eu me sinta bem, apesar de confusa e excitada, posso acreditar naquilo que eu quiser. Eu respondi-lhe que tudo isto não passa de uma grande aventura.
Continuo a sentir que voltei atrás no tempo
Continuo a sentir que voltei atrás no tempo, como se tivesse novamente quinze anos e subisse a rua do liceu numa tarde de Primavera, e o Morfeu passasse por mim e me piscasse um olho verde por baixo da franja comprida. E depois ele volta a pedir-me para ser sua namorada e a desaparecer durante todo o Verão. Nesse Inverno em que o Morfeu andou com outra rapariga, eu deitava-me em cima da minha cama e punha-me a imaginar que a minha vida mudava completamente de um dia para o outro, e que ele se apaixonava por mim. Tinha a sensação muito forte de que pertencíamos juntos. Para além disso, nessas minhas tardes de sonhos acordados, retrocedia em imaginação à infância e reconstruía tudo da maneira como sempre desejei que tivesse sido. Sentia assim felicidades que de outro modo não poderia ter experimentado. Outras vezes lembrava-me do Roque. E como também me cansava de viver só em sonhos, levantei-me da cama numa tarde amarelada e fui passear até à rua dele, para tentar vê-lo e assim distrair-me um pouco. Não tinha nada a perder. E, se o visse, melhor.
Quando virei a esquina da rua dele esta estava vazia. Mas enquanto caminhava em direcção ao seu prédio ouvi a grande porta da nossa infância abrir-se. Ele saiu. Vestia roupas pretas, calçava botas da tropa e tinha o cabelo louro e comprido a cair-lhe pelos ombros. Reconheceu-me imediatamente. E quando passámos um pelo outro sorrimos e dissemos olá. Voltei para casa pelos passeios cheios de carros dos anos oitenta com uma sensação quente no estômago. Será que ele também se sentia sozinho?
As aulas acabaram
As aulas acabaram. É Santo António e há uma festa na Padaria do Povo, à noite. Vou buscar a Laura a casa, ela está sozinha, e diz-me para entrar. Sorri com um ar entusiasmado:
- Tenho aqui um haxixe libanês que quero que experimentes comigo.
- A sério? É bom?
- Deve ser.
Então sentamo-nos frente a frente, de pernas cruzadas, no meio do chão da cozinha iluminada, e a Laura enrola o charro. Fumamos. O efeito é quase imediato e tão inesperado como quando subia as escadas do meu prédio e fiquei na dúvida se estava a sonhar. Como se de repente a cozinha, e nós, passássemos a outra dimensão. Então a Laura diz-me:
- Tive agora a sensação muito forte de que já vivi este momento.
- Quando?
- Não sei, talvez nunca, talvez a sensação seja de que este momento é suposto acontecer.
- Estou a ficar arrepiada, Laura!
- Não tenhas medo, Alice. É uma sensação boa, como se esta noite fizesse parte de uma história maior.
- Como as histórias dos nossos livros?
- Sim, como se o teu livro da levitação e meu livro nuclear já tivessem sido escritos, assim como tudo sobre a Lista E e o Festival da Paz.
- Por quem?
- Não sei. Talvez por nós, por outros, pelo Michael Ende.
- Não estou a perceber.
- Eu também não percebo completamente, mas não é preciso, porque a sensação é tão forte!
- O que é que sentes?
- Sinto que já vivemos este momento, ao mesmo tempo em que o estamos a viver e que o vamos viver novamente.
- Como se o passado, o presente e o futuro fossem só um?
- Talvez. É como uma espiral que gira, gira, e nunca tem fim.
- E deixa-me tonta.
- Mas não faz mal, pois não temos que pensar sempre nisto. E sabes o que é o melhor de tudo?
- O quê?
- É que como a nossa história está sempre a ser rescrita e revivida nós próprias podemos modificá-la.
- Então porque é que não somos felizes?
- Acho que é por causa do Nada.
- E o Nada é o quê?
- É o medo.
- Será que o medo é preciso?
- Talvez seja, para que os homens entendam como é importante viver.
- E o que é que sentes mais?
- Sinto que há uma pequena janela que se abriu um pouco, e para onde posso espreitar e ver coisas lindas que normalmente não conseguimos distinguir.
- Tais como?
- Tais como alguém que escreve a nossa história, não sei quem, mas que já sabe o que vamos dizer porque já o dissemos antes.
- Quem?
- Não consigo ver, Alice. Mas esse alguém sabe o quanto nos amamos e o quanto nos odiamos. Sabe tudo o que se passou entre nós até agora, e tudo o que se vai passar a partir daqui, porque tudo já aconteceu!
- E esse alguém observa-nos?
- Sim, está connosco neste momento a sentir o mesmo que nós e também já viveu isto antes.
- Então o meu livro já está escrito?
- Já, mas tu vais escrevê-lo outra vez, porque também já está escrito que o vais fazer, porque esta é a nossa própria História Interminável. Entendes?
- Acho que sim. E que mais vês pela tua janela?
- Vejo um mundo paralelo ao nosso, o qual não estamos preparadas para entender completamente, e que por isso só se revela às vezes.
- E esse mundo é perfeito?
- Talvez seja tão imperfeito quanto este, mas ao contrário.
- Do quê?
- Do nosso, tal como se fosse o outro lado de um espelho.
- E nós vivemos lá também?
- Sim, e estamos sentadas, neste momento, numa cozinha, a falar sobre o mesmo assunto ao contrário.
- O que é que dizemos?
- Dizemos que somos tão felizes que não conseguimos imaginar que haja o outro lado do espelho.
- Onde há medo.
- Sim, e os dois mundos, no fundo, completam-se.
- E achas que a Ema, a Sara, o David, o Levi e todos os nossos amigos vão pensar nisto um dia?
- Talvez, quando estiverem preparados.
- Vamos contar isto a alguém?
- Acho que é melhor não.
- Algumas pessoas estão mais próximas do que outras dessa janela, não achas?
- Acho que sim. E outras já estiveram mais perto e depois voltaram a afastar-se.
Quarta-feira, Março 09, 2005
O Midas anda com a Rosa
O Midas anda com a Rosa, embora ela esteja há muito tempo apaixonada por outro rapaz chamado Néri, que é giro e simpático. Mas toda a gente diz que ele agora gosta de rapazes. A Rosa recusa-se a acreditar nisso, como se fosse impossível, pois conheceu-o bem e sabe que ele gosta de raparigas. Será que ela nunca ouviu falar de bissexualidade? O Midas, pelo menos, já ouviu falar de poligamia, pois para além de mim e da Rosa ainda gosta da Ágata. Na associação de estudantes inauguramos a “Rádio É”, limpamos a sala de convívio, e todos sentimos que precisamos de algo para fazer juntos, pois andamos enfadados. A Ema diz que necessita de outro Festival da Paz. Eu a Laura deambulamos pelo bairro sozinhas todas as noites, e numa delas encontramos o Vilmo. Fumamos um charro com ele na igreja. Depois eu o Vilmo levamos a Laura até ao Jardim da Parada, ela vai para casa e ele acompanha-me até à minha rua. Despeço-me dele e subo as escadas do meu prédio às escuras, não sei porquê, talvez por achar que assim faço menos barulho e não acordo o meu pai. Antes de chegar ao meu patamar, subitamente, fico na dúvida se estou acordada ou a sonhar. Isto nunca me tinha acontecido. Mas concluo que estou acordada e que, depois de tanto tempo, finalmente fumei um charro que me fez efeito. Abro a porta da entrada e vejo a luz do quarto do meu pai acesa ao fundo do corredor. Tento caminhar calmamente, mas sinto-me alterada e o corredor escuro com a luz ao fundo começa a dar-me vontade de rir. O meu pai está sentado à secretária a desenhar, a fumar cigarros, e a beber cerveja. Devem ser umas duas da manhã. Sinto-me como se fosse desmaiar a qualquer momento e tento disfarçar para ele não perceber. Bato levemente na sua porta e digo-lhe, com uma voz alegre e um sorriso:
- Boa noite. Tudo bem?
- Sim, e tu?
- Estou com sono, vou-me deitar.
- Então dorme bem.
- Obrigada. Até amanhã.
Entro para o meu quarto e dispo-me rapidamente. Deito-me convencida de que vou adormecer e assim esquecer que estou pedrada e evitar que o meu pai descubra alguma coisa. Mas daí a pouco o meu coração começa a bater aceleradamente, e faz tanto barulho que fico na dúvida se o meu pai o poderá ouvir também, no quarto ao lado. Para além disso, receio que me esteja a dar um ataque cardíaco ou algo parecido, e apesar de não estar muito contente com a minha vida não me apetece morrer agora. Sento-me na cama para ver se o meu coração se acalma, mas não. Então penso que mal por mal mais vale ir falar com o meu pai sobre isto. Levanto-me e volto a bater-lhe à porta, que está entreaberta:
- Sim?
Ele continua sentado à secretária a beber cerveja e a fumar cigarros.
- Fumei um charro e agora não sei se me estou a sentir bem.
Ele levanta-se, com um ar preocupado.
- Um charro de quê? Queres ir ao hospital?
- Não, acho que não. De haxixe. Só gostava de saber se o que estou a sentir é normal.
- O que é que sentes? Dói-te a barriga? Queres vomitar?
- Não.
Sento-me em cima da sua cama e encosto-me às suas almofadas, relaxadamente, com as pernas cruzadas e um ligeiro sorriso idiota. Digo:
- Se eu soubesse que isto não era perigoso até me estava a divertir.
Ele pega no telefone e põe-se a marcar um número. Eu acrescento:
- Agora estou a ver tudo às bolinhas...
- Estou? Lia? Olha, a tua filha agora droga-se! Acho que é melhor falares tu com ela porque eu cá não percebo nada disto.
Passa-me o telefone e a minha mãe está do outro lado da linha, com voz de sono:
- O que foi, Alice?
- Fumei um charro.
- Sabes que horas são aqui? Estás bem?
- Acho que sim.
- Com quem é que fumaste?
- Com uma amiga.
- Então e foste contar ao teu pai?
- Sim.
- Vai-te deitar, isso passa, não tenhas medo.
- Está bem.
- Depois falamos.
- Até amanhã.
Desligo e levanto-me da cama.
- Estou melhor. Vou comer.
Na cozinha preparo um pão com Nucrema e bebo um copo de leite gelado. Depois fico com sono, enquanto mastigo o pão, novamente sentada na cama do meu pai. Anuncio:
- Vou-me deitar.
- Tens a certeza?
- Tenho.
Fica parado a olhar para mim, e como ainda está assustado deixa-me ir sem dizer mais nada. Daí a pouco, quando já estou deitada e quase a adormecer, sinto-o entrar no meu quarto. Põe-me a mão na testa, pergunta-me se estou bem, respondo-lhe que sim e vai-se embora. Adormeço.
Terça-feira, Março 08, 2005
O Berto vai ter a minha casa à hora de almoço
O Berto vai ter a minha casa à hora de almoço e conta-me que a Fausta hoje voltou a dizer-lhe que tem a certeza que ele a anda a enganar e depois começou a chorar novamente.
- Já não consigo mentir-lhe mais, Alice.
- Então vais contar-lhe a verdade?
- Acho que sim. E depois ela deixa-me, mas pelo menos isto acaba. Estou farto.
- Também eu.
- Antes não tinha namorada nenhuma, sempre achei que era feio, e agora tenho duas!
- Pobrezinho!
- Não gozes!
- Estava a brincar.
- O pior é que no meio desta merda toda às vezes também me dá vontade de rir. Passo por cá às seis e meia, depois de falar com ela, está bem?
- Está.
Às seis e meia não aparece. O telefone toca e é ele. Diz-me que está com a Fausta a ligar duma cabine e que lhe contou tudo. Pede-me para ir ter com eles ao Jardim dos Prazeres. Saio de casa e desço a minha rua. Atravesso a estrada e entro na parte de cima do jardim. Eles estão na parte de baixo, sentados num banco. Vou lá ter e sento-me também. O Berto fica no meio. A Fausta levanta-se e diz-me, com uma cara muito séria:
- Obrigada por vires, Alice.
E de seguida põe-se a discutir com o Berto e começo a pensar que não estou ali a fazer nada. Digo que me vou embora mas ela interrompe a discussão e pede-me que fique. Volta a sentar-se e começa a falar comigo, com o Berto sempre no meio:
- É que acho que esta conversa te diz respeito e quero que saibas que acho que a culpa não é tua.
- Porquê? – pergunto-lhe.
- Porque pelo que o Berto me contou tu não provocaste nada, e quem tem andado a enganar-me é ele, não tu, pois nós as duas não temos propriamente uma relação.
Depois olha para o Berto:
- Tu é que andaste a brincar connosco e na minha opinião não gostas de ninguém.
- Sabes bem que isso não é assim, Fausta.
Começo a ver a Laura, o Branco, e o Jove a subirem a rua do liceu e a encaminharem-se para o jardim. Fazem todos uma cara espantada quando nos vêem aos três e sentam-se noutro banco longe de nós a fumar cigarros. A Fausta continua:
- E agora, Berto? Quem é que vai ficar bem nesta história toda?
- Não sei.
- E o que é que vamos fazer?
- Não sei, Fausta.
- Então quem sabe?
- Nós os três.
Ela olha para mim. Digo-lhe:
- Eu e o Berto acabámos ontem, Fausta. Ele quer ficar contigo.
- É mesmo isso que tu queres, Berto?
Ele responde-lhe que sim.
- E como é que alguma vez vou poder voltar a confiar em ti?
- Não sei.
- E como é que fica a Alice no meio disto tudo? Achas justo?
- Não.
Ficamos os três calados durante um bocado, sem saber que mais dizer. Até que a Fausta conclui:
- Eu não consigo acabar contigo, Berto.
Silêncio por mais uns momentos.
- Sei que não gostas de mim, porque se estivesses apaixonado não sentias necessidade de estar com mais ninguém.
- Não é verdade, Fausta.
- Mas não consigo deixar-te, Berto, porque gosto de ti.
Olha para mim novamente:
- Alice, não sei o que dizer, mas isto aconteceu e continuo a ser tua amiga.
Então eles vão-se embora os dois e eu vou ter com a Laura e com os outros. Juro que me sinto numa peça de teatro que passa à próxima cena. Pergunto à Laura se posso falar com ela, e ela levanta-se e vem comigo sentar-se no banco onde estive com a Fausta e com o Berto. O Martim e o Luca chegam entretanto e sentam-se com o Jove e com o Branco. Olho para a Laura, para os seus belos olhos escuros meio cobertos por caracóis compridos, e pergunto-lhe se está zangada comigo. Ela responde-me:
- Talvez esteja tão zangada contigo como tu comigo.
- Gostavas mesmo do Marco?
- Não. Quer dizer, não sei, confundi-me. Mas fiquei lixada com vocês!
- Eu gostava mesmo do Dinis.
- Eu sei.
- E agora?
- Falei com o Marco e está tudo bem.
- Voltaram?
- Não.
- O Berto hoje contou tudo à Fausta.
- Já percebi. Como é que te sentes?
Encolho os ombros e digo:
- Tenho que falar com o Jove.
- Fazes bem. Ele devia parar de dizer merdas.
Levantamo-nos e ela acrescenta, com um sorriso:
- E vê lá se não te metes comigo outra vez, Alice no País das Maravilhas, porque tu és mais alta mas eu sou mais gorda!
- Está bem, Laura Love.
Sorrio-lhe e vamos as duas ter com os outros. Pergunto ao Jove se posso falar com ele e ele diz que sim e segue-me para o banco dos réus. Não estou para meias conversas e digo-lhe:
- Acho que mal me conheces e não tens nada que andar a espalhar boatos sobre mim, Jove!
- Foi assim tão mau?
- Foi.
- Mas não era mentira.
- Mas disseste a verdade sem contexto nenhum!
- Não foi por mal, mas pronto, não volto a fazer.
- Ainda bem.
Levantamo-nos os dois com uma cara semi-séria e vamos ter com os restantes. Eles vão todos para as Amoreiras, menos a Laura, que me pergunta se quero ir até casa dela. Respondo-lhe que sim, e nem sequer seguimos pelo mesmo caminho que eles. A mãe da Laura está mal disposta. Discutem na cozinha, eu sigo para o quarto, e depois a Laura vem ter comigo e começa a chorar. Fico sem saber o que fazer. Faço-lhe uma festa no ombro e pergunto-lhe:
- O que foi?
- Ela anda armada em parva. – desabafa.
Seca as lágrimas e senta-se na cama ao pé de mim. Todo o quarto é um amontoado de roupa espalhada pelo chão. As prateleiras estão vazias. As paredes estão cobertas de frases escritas por cada pessoa que ali entrou, outras pela Laura, e algumas pinturas e desenhos. Pergunta-me:
- Queres ver o meu livro de poemas?
Respondo que sim e vai buscá-lo. Abre-o ao meu lado e lê-me alguns dos seus preferidos. Depois, como pareço gostar, empresta-me o livro para eu acabar de o ler em casa, porque tem mesmo muitos poemas e todos parecem interessantes. Há um que se chama Agora que Acabou, e faz-me lembrar do Berto.
No armário tenho os chapéus
No armário tenho os chapéus que o Shine e o Saul me deram na dimensão anterior. Um castanho com uma penugem cor-de-laranja à volta, e outro verde e castanho, que me faz parecer uma jamaicana. Tenho as minhas perneiras anarquistas, às riscas pretas e vermelhas, e as minhas luvas sem as pontas dos dedos, assim como o saco cor-de-rosa cheio de fitas e dourados pendurados que o Shine reciclou do lixo para mim no Verão passado. E tenho um vestido roxo, lindíssimo, aveludado, e um vestido vermelho de algodão canelado, que nunca vi. Ambos devem ficar-me justos e curtos, mas não exageradamente. As minhas roupas novas neste sonho continuam a lembrar-me as da Hope Sandoval. Simples e sóbrias, femininas, fazendo-me recordar dias de chuva no Outono. Tenho saias e collants em tons pastéis, botas compridas e outras mais curtas, ténis, calças de ganga, casacos de fazenda, cachecóis às riscas de cores como um arco-íris, e um vestido às flores em tons outonais, quase até aos pés, que me lembra um cortinado e me deixa fascinada. Decido vesti-lo hoje, e prender o cabelo em tranças. Este penteado fica-me bem nesta vida. Na outra dimensão, nem por isso, embora as tranças me inspirassem. Agora posso usá-las. Gosto cada vez mais deste sonho, apesar de ter perdido, talvez, tantos amigos. E onde estará o meu computador portátil?
Quando saio de casa de bicicleta, para ir ter com o Marco, passo pelo local onde costumava estar estacionado o Carocha verde descapotável que agora é do meu pai. O seu lugar lá continua, em frente ao supermercado de onde o Shine saiu uma vez de pantufas. Mas o carro, obviamente, desapareceu. E ainda tenho que perguntar ao meu pai de onde é que ele voltou do Texas. Aposto como foi de El Paso. Eu e o Marco andávamos a combinar ir até lá. Nesta vida, segundo o Shine, fui com ele a Austin, mas não me lembro. Nem me lembro de ter estado no Tenessee, com a sua família cristã tresloucada. Que pena. Adorava lembrar-me de Memphis, e do Mississipi, dos norte americanos, e mesmo das rezas à mesa dos tios e tias Huckleberry. Todavia, na dimensão anterior, embora não tivesse estado nesse continente, sentia, estranhamente, que estivera. Faz sol, embora esteja frio e precise das minhas luvas sem dedos, e do meu casaco castanho comprido, justo e apertado ao corpo. Uso um cachecol também castanho, muito longo e enrolado várias vezes ao pescoço, e a boina que o Saul me deu e me faz parecer jamaicana. É tão bom quando faz sol em Amesterdão. Toda a gente sorri. Uma onda de energia simpática percorre a cidade de uma ponta à outra, debaixo dos raios ainda pálidos da Primavera nórdica. Sinto-me feliz, a caminho da cantina da universidade, de bicicleta pelos canais que me fazem lembrar pinturas. Desço o Single até virar para a Spuistraat, e atravesso o mercado dos livros velhos em direcção à Rokin. Atravesso a ponte onde os viciados em heroína costumam vender as bicicletas roubadas, e entro no átrio da universidade. O Marco espera-me em frente à porta de vidro deslizante da cantina. Exactamente no sítio em que nos conhecemos há quase um ano, e onde morremos ao dizermos olá pela primeira vez, com o pobre do Vilmo, que estava comigo e morreu por anexo.
- Lara! – exclama, ao ver-me.
- Hi, Marco! – digo-lhe, saltando da bicicleta e indo dar-lhe um abraço. E então o tempo parece voltar a parar. Não sei bem porquê, mas tenho a sensação muito nítida e forte de que algo muito importante está a acontecer, algo de tão eterno como momentâneo. Ficamos abraçados durante duas horas, iria jurar, mas talvez tenham passado apenas dois minutos. Sinto o vento atravessar-nos, e a minha bicicleta cai ao chão.
- Wow! – exclama ele, quando nos largamos. – What’s going on?
- I don’t know. – respondo. – I don’t even know you.
Ele olha-me, sério e sorridente ao mesmo tempo, intensamente.
- Yeap… you’ve changed! – conclui.
- How have I changed?
- I don’t know exactly, but you did. – informa. – Let’s lock your bike and get inside, it’s cold!
- OK.
Tranco a bicicleta com os dois cadeados, e entramos pela porta automática, que desliza para os lados enquanto sorrimos um ao outro.
- Did we die here, when we met each other? – pergunto-lhe.
- What are you talking about? – diz ele, confundido, mas continuando a sorrir.
- Oh, god… I think I’ve lost you. – murmuro.
- Lara, you know you’re saying very strange things, don’t you?
- Yeah, but I can explain everything, don’t worry.
- Oh, I’m not worried. – acrescenta ele. –Even if you would suddenly be totally out of your mind, I’d still love you, that’s for damn sure!
- Thanks. – digo-lhe. – I have so many things to ask you, and to tell you, I guess.
- Yeah, and we have all the time in the world. – comenta. – Ain’t that nice?
- And you talk exactly like before. – comento.
- You mean before you were in some other place for ten days? – pergunta.
- Yeah, for you it’s before that, for me it’s before this dream.
- I see. Wanna eat?
- Yeah, I’ll have the vegetarian dish. Oh, god, the girl we like is there!
- Who? Which girl? – pergunta ele.
- The girl at the check out desk. – respondo. – We used to like her.
- We? – ele ri-se. – Yeah, she’s pretty!
- She’s not just pretty, she’s one of us.
- One of us? – pergunta-me.
- Oh, Marco, this is so painful, I feel like I’m talking to a total stranger!
- I’m not a stranger, Lara, I just don’t know what you’re talking about, but I’m sure you can tell me everything.
- Yeah, but without your mind, without our past, I feel really alone!
- I’m sorry. I just don’t know who I was in that past of yours, but I’m sure we’ll be friends again, now, like we always were, in all the dimensions!
Sorrio-lhe. Disse as coisas certas, como sempre.
- Shall we pay? – acrescenta.
- Yeah, let’s pay.
Dirigimo-nos para a caixa, e a rapariga loura que me fazia lembrar a Mara Palmer sorri-me.
- Hello, Lara. – diz-me ela.
- Oh, how are you? – pergunto-lhe.
- Fine. You’re back. – responde-me.
- Yeah. – digo. – Nice to see you again. I forgot your name.
- It’s Clarity.
- Really? I had forgotten it, I’m sorry.
- That’s no problem. But we should go for a coffee sometime, or something.
- Yeah, we should.
- I still have your number. – diz-me. – I’ll call you.
- OK.
- Have a nice lunch.
- Thanks.
- I didn’t know you knew her! – comenta o Marco, enquanto nos afastamos em direcção às mesas.
- Me neither.
- See? This dimension ain’t so bad at all! - acrescenta ele. - You lost my mind, but you gained a new friend!
- I would prefer to loose all my friends and still have your mind.
Ele olha para mim com um ar surpreendido, e eu calo-me e fico admirada com o que acabei de dizer.
- I don’t know why I just said that. – acrescento, ainda, sentando-me.
No pântano perto do lago Pana Soffkee
No pântano perto do lago Pana Soffkee comemos fruta e continuámos a nossa viagem interdimensional. Quando as alucinações diminuíram de intensidade esta tornou-se mais filosófica, dando origem a conversações profundas. E por fim senti uma enorme necessidade de estar só. Então afastei-me da Sea e do Sand, que continuaram a falar, e fui até à margem do lago olhar para as águas, sentada em cima de um enorme tronco de árvore descaído. Fiquei por ali não sei quanto tempo, perdida, a contemplar o meu reflexo. E depois vi mais uma vez a rapariga do outro lado do espelho. Sorrimo-nos e percebi que ela não me queria mal. Apenas estava triste e precisava de ajuda. Talvez precisasse de amor. De magia. De um pouco de felicidade. Entendi que era ela que aparecia nos meus sonhos. Por isso é que eu usava outras roupas e parecia diferente. Não se tratava de mim, mas sim dessa rapariga de sorriso triste.
– O que se passa contigo? – perguntei-lhe.
Não me respondeu. Apenas continuou a olhar para mim, como se quisesse pedir ajuda e não soubesse como. Somente comunicava comigo através do meu reflexo e dos meus sonhos enigmáticos. Nada mais. Eu teria que interpretar sozinha o seu pedido e descobrir sem explicações os meios da minha ajuda, apenas através das aparições insistentes do seu reflexo que a partir desse dia deixou de me assustar. Disse-lhe, carinhosamente:
- Não te preocupes. Ainda não sei como, mas vou fazer-te feliz.
Ela voltou a sorrir. Depois desapareceu. Quando o Sand chegou ao pé de mim eu chorava e sorria simultaneamente. Ele sentou-se ao meu lado no grande tronco e abraçou-me. Eu disse-lhe que estava bem. A Sea tinha voltado para o carro e queria ir para casa. Fomos ter com ela, e no caminho para a quinta já não viajámos numa abóbora. Os meus cabelos ao vento entrecortavam as imagens, e eu pensava que não entendia porque existia sempre uma felicidade tão grande na minha vida. Achava que não a merecia, que não tinha direito a ela. E o resto do mundo? E a rapariga por trás dos reflexos?
Nessa noite eu e o Sand fizemos amor pela primeira vez, no meu quarto do sótão. Eu vi as estrelas na noite através da janela, e senti-me verdadeiramente num planeta, a girar lentamente, protegida pelo Sistema Solar, viajando eternamente pelo Universo. Nunca havia feito amor antes. Só sexo. Tínhamos velas acesas por todo o quarto, e apesar do frio ficámos muito tempo nus, sentados, agarrados, abraçados, de frente um para o outro, a contemplarmo-nos. Os olhos do Sand tinham galáxias dentro deles.
Dia seguinte
Dia seguinte. Acordo na cama do Rio e posso ouvir todo o barulho matinal de carros e pessoas na agitada rua, enquanto a Gata se espreguiça deliciada e morna entre as minhas pernas, brilhando branca sob os raios de sol que penetraram as persianas. Procuro um vestido de alcinhas no meu saco de viagem, calço as sandálias, e saio de casa. O céu está azul e faz calor. Há muito barulho no mercado de Sapadores, cheiro a peixe, autocarros a poluir o ar e gente pequena vestida de cores escuras, caminhando nos passeios, com sacos de compras dos supermercados. Velhotes de bengala, viúvas com netos pela mão, adolescentes tentando diferenciar-se da persistente igualdade provinciana da cidade pobre, e gatos vadios por baixo dos carros estacionados. O eléctrico vinte e oito sobe a Angelina Vidal e segue a caminho da Graça, quando eu atravesso a estrada por cima da passadeira e agradeço ao condutor do táxi que civicamente me deixa passar. Esse eléctrico que provavelmente não faz uma viagem sem a atribulação causada por algum carro mal parado em cima da linha, numa curva ou isso, causando um ataque de nervos ao condutor e os comentários salazaristas dos velhotes contorcidos e mal dispostos, enquanto que a geração nova e apática fica a olhar sem proferir opinião. E por fim são os velhotes tortos e resmungões que se levantam esquecendo a bengala no banco, e vão em grupo içar e deslocar ligeiramente o carro refratário com uma força vinda não se sabe de onde, após o que voltam a entrar no eléctrico cheios de adrenalina e alegria vitoriosa. A geração apática não esboça um sorriso e aconchega-se na timidez excessiva que a impediu de se expressar em primeiro lugar, e o transporte público lá segue caminho para chegar quarenta e cinco minutos atrasado ao seu destino.
Entro na pastelaria onde costumava sentar-me a escrever nas manhãs da dimensão anterior, e peço um galão e um bolo. Olham-me com o mesmo ar descrédito de antes. Há coisas que nem nos sonhos mudam. Nesta irrealidade tenho um ar menos estranho, mas eles não se importam. Continuo hippie, com os meus cabelos despenteados e o meu vestido de Verão comprido e às flores. Cabelos desgrenhados é coisa que não se admite, pois não se entende. Mas parece-me que esta é a pastelaria mais peculiar que conheço, pois não me lembro das outras serem tão fechadas no seu próprio mundo, com empregados que mal proferem palavra ou dirigem olhares. Talvez sejam todos fantasmas aborrecidos. Um senhor fuma na mesa ao lado da minha e lê o jornal. A televisão, quase pregada no teto, mostra notícias de gente a queixar-se de faltas públicas, acidentes, e ainda o eterno e aterrador assunto da pedofilia. Uma senhora entra no café com lágrimas nos olhos e dirige-se ao senhor que fuma e lê o jornal ao meu lado. Põe-se a dizer-lhe que ele não quer saber, que está farta e cansada, que isto assim não pode continuar. Ele continua a fumar e a ler o jornal, sem olhar para ela. Toda a gente no café finge que não viu nada, e a senhora vai-se embora. Saio novamente para a linda manhã cheia de sol, após pagar a minha conta à empregada da caixa, que apenas me diz obrigada por eu ficar calada a olhar para ela. Já sei que se eu lhe digo obrigada ela não diz nada. E de seguida dirijo-me para casa do Noel.
SOLSTÍCIO
A Luna parece uma japonesa loura. O meu padrasto é simpático e bonito, muito alto. A minha mãe emana felicidade e engordou. Continua, todavia, uma mulher bela. Mas aborreço-me. Se o Sand não estivesse comigo morreria de tédio. Não fico nem um segundo sem ele. Encontrámos um lago enorme e pantanoso que nos recorda o Pana Soffkee. Chama-se Gaasperplas. Desde então vamos até lá todos os dias de bicicleta e sentamo-nos num velho ancoradouro de madeira a fumar charros e a olhar para as ondas sopradas por um vento frio. Um moinho moderno e aerodinâmico gira as suas pás metálicas a poucos metros dali, em nada lembrando os sublimes moinhos antigos. Chuvisca muito. Nem parece Verão. Cheira a terra húmida e vêem-se cogumelos aos montes ao pé das árvores. Parece que estamos num país de fadas. Tenho a certeza de que se comêssemos cogumelos tampanenses as veríamos.
Ontem fomos ao centro com a minha mãe. Cheirava a erva pelas ruas cheias de gente e de cor. Se houvesse uma cidade no fim do arco-íris seria Amesterdão. Hippies descalços passeavam em grupos, com cães, e raparigas de tranças e saias compridas tocavam flauta no Vondelpark. Passou por nós um grupo vestido com fatos prateados, usando impressionantes botas de saltos altos e grossos, também prateadas, e as cabeças rapadas com apenas um fio de cabelos pintado de branco e espetado como uma antena. A minha mãe diz que esse grupo se veste sempre como extraterrestres.
Toda a gente olhou para mim, mas isso não me fez sentir mal. Pelo contrário, foram olhares diferentes da mirada tímida ou crítica de Portugal, e também da observação moral americana. Aqui as pessoas sorrirem-me, aprovam-me. Espanta-me não esconderem o verdadeiro motivo do seu olhar. Nesta cidade, entre as nuvens, existe consciência.
CAOS
A sensação foi igual à da festa no Mojave, mas agora aqueles comprimidos têm outro nome. Chamam-se ecstasy e é realmente isso, ficamos em êxtase. Também experimentámos base de cocaína em casa do Noel, e começámos todos sete a falar ao mesmo tempo sobre vários assuntos em simultâneo, enfiados na casa de banho sem motivo aparente, eufóricos e sorridentes. Depois fomos para a Torre de Belém, e assim que chegámos o Amaro saiu do carro e pôs-se a correr feito louco, às voltas, pelo jardim onde estacionámos. Quando nos sentámos na torre demos as mãos e dissemos uns aos outros o quanto nos amávamos. Fumámos cigarros a meias, e charros, e depois voltámos para casa, onde estivémos até de madrugada a ouvir música e a beber água. Aquela cassete que a Morgana me gravou, anos antes, é uma das preferidas do Oto, que não parou de a passar durante três meses todos os dias. Tem Sonic Youth, Velvet Underground, Aretha Franklin, Woodentops, Big Black, Beatles, Pixies, Cult, Butthole Surfers, Minimal Compact, Death in June, Ciccone Youth, Throwing Muses, Love and Rockets. E o Donald gravou-nos uma cassete com todas as músicas que passa nas suas raves. Música para dançar. Na que o Oto gosta mais toca um saxofone. Acabámos a manhã a ouvir O Pastor, dos MadreDeus, e depois disso adormecemos.
Mas, ao mesmo tempo, estudamos. A Sara Jornalismo, o Oto Informática, o Noel Antropologia, eu Literatura, o Pomba dá aulas de Química, a Andresa e o Amaro estudam Circo. Por vezes não os vejo durante toda a semana, nem ao Oto, para me concentrar no Fernando Pessoa, no Mark Twain, e na própria Alice, que continua a impor-se aos meus dias e a querer ser escrita. Ninguém sabe desse meu livro secreto. Apenas o Sand ouviu falar da existência da rapariga do outro lado do espelho, mas não lhe conhece o nome. Nem eu sei porque a denominei assim. Mas um dos livros que mais me inspiraram desde sempre foi essa obra do Lewis Carroll, sobre uma rapariguinha sonhadora num suposto país de maravilhas de lógica paradoxal. Talvez por isso. E depois aos fins de semana juntamo-nos novamente, passeamos por Portugal, vamos às raves nos palacetes de Sintra, tomamos ecstasies e damos as mãos. Dançamos e o Pomba tira-nos fotografias belas, gasta rolos e rolos connosco durante as tardes, tal e qual como o meu pai.
O Zelo perguntou-me se o meu cabelo está cor-de-rosa para combinar com a cor do meu Mini, ou vice-versa. Toda a gente olha para mim na rua, fazem comentários idiotas, chamam-me Barbie, perguntam-me onde é o circo. Mas também já me chamaram de algodão doce, sereia, princesa bebé. Seja como for lembro-me de Amesterdão, e da sensação de liberdade que experimentei por lá, naquelas ruas coloridas e plenas de pessoas originais, sem preconceitos, hippies e simpáticas. O Félix passa a vida a mexer-me no cabelo, põe-no por cima da cara dele, fica cómico. Já não anda com o Zelo. Agora gosta de raparigas, ao que parece. Também já não está tão mágico como antes, embora continue alucinado. Perguntou-me se podia fazer graffiti’s na parede do meu quarto. Disse-lhe que sim. Agora acordo a olhar para grandes desenhos de esqueletos a andarem de skate, com o sol a bater neles. Por incrível que pareça, acordo extremamente feliz.
SARA
Andamos pelas ruas de Campo de Ourique a pedir cigarros a quem passa, o que é difícil, sobretudo quando estou com ela, pois é mais baixa que eu e temos as duas um ar demasiado novo para alguém se sentir bem a dar-nos de fumar. Separamo-nos e cada uma dá a volta a um quarteirão diferente. Depois encontramo-nos à porta da casa da Sara.
- Foda-se! – exclama ela. - Não arranjei nada! Estes idiotas pedagogos olham para mim e devem achar que eu tenho treze anos. Mas tenho quinze, estúpidos!
- Eu arranjei um. – sossego-a. – Já chega por agora. Vamos fazer o charro.
Seguimos para a Igreja de Santo Contestável, onde nos sentamos à porta de uma capela.
- Enrolas tu? – pergunta-me. – Tens mais jeito.
- Está bem. – respondo. – Faz o filtro.
- Está bem.
Ela rasga a ponta de um módulo de autocarro usado e enrola-a em cilindro com dobrinhas no meio para não deixar passar nada. Eu parto o cigarro e espalho quase todo o seu conteúdo na palma da minha mão, depois ponho a pequena pedra de haxixe em cima do montículo de tabaco e começo a queimá-la com o isqueiro até ficar em brasa. De seguida desfaço com os dedos a substância preta, ainda quente, e misturo tudo. Sente-se o cheiro forte do haxixe. Então coloco a mortalha aberta por cima da mistura e viro a mão ao contrário para cair tudo no pequeno papel. A Sara dá-me o filtro e eu ajeito-o numa das extremidades. Por fim enrolo, lambo a parte da mortalha que tem cola, e o charro está feito. A Sara tem um isqueiro e eu acendo-o. Ficamos ali a fumar consoladas, sabendo que daí a pouco estaremos noutra espécie de dimensão.
- Gosto quando aparece de repente uma nuvem dentro da minha cabeça e então sei que estou mocada. – diz a Sara.
- Sim. – concordo. – Às vezes parece-me que estou num sonho.
- E que se abre uma janela, nunca sentes?
- Sim! – exclamo. – É óptimo!
- Quando fumo ao menos sinto-me livre. – continua a Sara.
- Eu sei. Perde-se a consciência das obrigações e tudo é bom. – digo. - Cada momento é infinito.
- Quando for grande quero viver numa casa enorme e cheia de gente da minha idade, todos artistas, a fazerem as suas pinturas, poesias e músicas. – divaga a Sara.
- E depois? – pergunto.
- E depois fumamos charros e somos felizes. – diz. – E o Sol brilha sempre por cima das nossas cabeças!
Sorrio. Às vezes ainda a acho uma menina utópica e infantil, embora ao mesmo tempo pressinta nela uma inteligência poética, que se nota nos livros que lê, nas músicas que ouve, e no modo como observa tudo e todos, persistentemente silenciosa, sobretudo quando ainda não conhece bem as pessoas. Imagino que aprende sobre o mundo, para um dia ser uma rainha sábia, uma diva calma, e para sempre a minha melhor amiga.
Pelo caminho
Pelo caminho passou por nós uma rapariga gótica, com um daqueles vestidos compridos e arqueados, à dama antiga, com arames por dentro. O vestido era preto, os seus cabelos negros, e ela usava longas luvas até aos cotovelos. Enquanto caminhava o vestido balançava, e ela transportava no rosto uma expressão muito séria e abstraída dos olhares alheios, maravilhados com a sua peculiaridade.
- Did you see that? – perguntei ao Marco.
- Yeah, amazing!
- Do you think she just traveled in time?
- If she did, do you think she came from the past or from the future?
- Both, simultaneously. – respondi. – But she looked as if she didn’t see us, or anybody else. She looked as if she wasn’t here.
- She could be a ghost, you know?
- Yeah, she could definitely be a ghost. She could also be a vampire, but that’s too obvious.
- Maybe there was a momentary cross between dimensions and we could all see her but she couldn’t see us.
- Yeah! It looked like that!
- Maybe this is a dream and she was a dream figure.
- Absolutely! And this afternoon has been as perfect as a dream. I mean, it’s like there’s nothing we can say or do or see that doesn’t seem like it’s coming out of a dream.
- And we can’t stop talking, can we?
- No, I guess we can’t.
- Wanna go to a second hand book store?
- Is it big, with corridors full of books?
- Of course.
- I like those book stores. They’re full of ghosts.
- Really?
- Yeah, that’s one of their favorite places to hang out. And libraries. You can feel them in the libraries, sitting next to you, and reading books in the corridors, five centimeters above the floor. I have a ghost in my house, you know?
- Do you?
- Yeah, his name’s Gil. He hides things from me as a way of communicating. He needs attention.
- Wow! And how do you know his name? Or that it’s a he?
- Oh, I just gave him a name from a song. I don’t know, I just feel it’s a he. He’s been around for years, you know?
- Really? And how do you know it’s a ghost?
- I don’t, I just like to believe it, that’s all. Maybe it’s true, and then he's happy because I acknowledge him.
- Is that what he wants?
- Yeah, I think that’s all he wants. He’s friendly.
- How did you notice him?
- Well, things started disappearing... spoons, for instance. Suddenly, all my spoons we’re gone. And a girlfriend of mine had told me once that her spoons we’re disappearing. She told me that it could be a ghost. And then, when she left Holland, my spoons started vanishing. I thought maybe I inherited her ghost, and I welcomed him into my house. Now I have too many spoons. He slowly returned them, after I bought new ones.
- That’s funny.
- Yeah, and through the years I started speaking to him. Once I was looking for something in a hurry, and I got really pissed off and shouted at him. And, immediately, what I was looking for just appeared. I mean, I looked at it and I saw it. Then I got a bit shocked and felt guilty for shouting at him. I was touched with the whole thing. I thought he was a really sweet ghost. And, another time, I wanted to test if asking him for missing things would work again, but I thought maybe I was pushing my luck, so I was kind of hesitating, but finally I asked him about something I couldn't find, and immediately I saw it again. So then I was kind of sure there was something going on in my house. I didn’t know what it was, I didn’t need to know, it just gave me a nice feeling.
- That’s cool!
- It’s whatever you want, you know? You can choose to believe whatever you want. And you’ll probably never be sure of anything, but as long as it makes you happy, it’s worth beliving in it, right?
- Guess so!
- And sometimes, the more you believe in things, the more they happen...
- Yeah, just like in dreams!
- We should watch Waking Life together.
- You think so? But you’ve seen it twice.
- I would like to see it again.
- Yeah, I would like to see it again too.
- We should rent the video.
- I guess we will, then.
- I guess we already did.
Segunda-feira, Março 07, 2005
O David
O David é engraçado. Já não me lembrava de como era louco e inventivo. Chegou um tanto apático, e fez-me impressão ele estar assim. Não consigo fingir que está tudo bem quando algo me incomoda e as pessoas envolvidas são capazes de o entender. Quero dizer, não vou dizer à minha avó que ela fica nervosa muitas vezes desnecessariamente. Ela tem noventa anos. Nem vou dizer-lhe que o Cristianismo é uma religião inconsciente de propósitos esquecidos, como tantas outras. Pelo contrário, levo-a à missa, recordo a minha infância, e tento perceber o que há de simbólico na celebração da vida em torno da adoração de um Deus. Tento decifrar a origem da lógica. Acabo por concluir que ir à missa é o mesmo que ir a uma festa transe. As pessoas apenas querem unir-se, dar e receber amor, sentir as energias do Universo, de si próprias, e purificar-se. Comer a hóstia é o mesmo que tomar um ácido. A religião é uma inevitável condição humana. Não acreditar em nada é acreditar que não se acredita em nada. Mas, ao David, digo-lhe:
- Estás a meter-me impressão, pareces um atrelado!
Ele fica ofendido. Quer ir-se embora. É verdade que sou bruta. Mas tenho a mania de não ser hipócrita com os meus amigos. Se são meus amigos, trato-os como pessoas inteligentes e não como flores frágeis e sem entendimento. Eles magoam-se. Mas pelo menos sentem sempre a verdade e não a ilusão do meu amor. Explico-lhe:
- Não decides nada, David! É como se não estivesses cá mas estás, e tenho que andar a puxar-te para todo o lado. Para filhos já me chega a Luna, percebes?
- Sim, é verdade, Alice, mas não me sinto bem. Tenho andado assim ultimamente, e não tem nada a ver contigo.
- Desculpa, David, se te pus triste, mas se não te dissesse isto não me sentia sincera. Não tenho muito jeito para estas situações.
No dia seguinte tudo melhora, e ele volta a mostrar-me como é interessante, original, tresloucado e amadurecido. Já não somos adolescentes, por incrível que pareça tornámo-nos adultos, mas continuamos a ser crianças. Ele faz-me rir. Vamos passear pelos canais e reciclamos um colchão enorme. Este parece ter quatro pernas e caminhar lentamente pelas ruas quando o transportamos para minha casa. Lembro-me do dia em que fomos ao supermercado com a Laura buscar caixas de cartão para a festa de Natal do liceu, e ele parecia uma pilha de cartões com pernas. Levo-o a Gaasperplas e nadamos no lago enorme e pantanoso, de água doce e lamacenta. Pensamos na Laura, e em como ela se sentiria se estivesse connosco nesta terra de sonhos. Ele lê os meus livros durante as noites, e sente-se tão inspirado que quer escrever a sua própria versão da nossa história. De manhã diz-me:
- Podia usar os mesmos nomes que tu!
- Era lindo! – respondo. – Subitamente montes de livros sempre a relatarem as mesmas coisas de modo diferente, e os mesmos nomes esquisitos a repetirem-se constantemente, como se fossem os nomes mais típicos do dicionário onomástico português!
Rimo-nos. Imaginamos. Sonhamos. Sempre tivémos a capacidade de sonhar juntos. Digo-lhe:
- Já sei porque é que ficámos amigos todos estes anos.
- Porquê? – pergunta-me.
- Porque nunca deixámos de sonhar.
Na festa de drum & base
Na festa de drum & base toda a gente está sentada pelos cantos da sala, e eu e a Rose sentamo-nos também, num sofá, ao lado de um polaco que já dorme de tão bêbado ou cansado. Afasto as pernas dele um pouco para o lado, para me poder sentar confortavelmente, e ele abre os olhos ligeiramente e sorri-me, enrosca-se melhor e volta a ficar com as pernas dele encostadas às minhas. Eu tinha dito ao Shine que ia àquela festa com a Rose, e que viesse ter connosco mais tarde. Mas nessa noite ele fica a construir quartos no armazém naval, pois faz demasiado frio para continuarem a dormir em tendas. Durante mais de uma hora eu e a Rose falamos sobre festas, sobre os diferentes tipos de músicas que se tocam nelas, e sobre as atitudes e rituais das pessoas que a elas vão. Passámos por um bar onde tocavam uma espécie de house, antes de virmos para aqui. Um house desinteressante, como grande parte desse estilo musical, onde a comunicação proveniente tem muitas vezes um interesse puramente sexual. Quando entrámos nesse bar as pessoas olharam-nos de uma maneira demasiado intensa, que nos causou desconforto, e agora, nesta festa punk, sentimo-nos extremamente à vontade.
- Have you noticed that the further you go the harder it gets? – pergunta-me a Rose. – I mean, the music?
- You mean, you started by enjoying house and now that’s too soft and you can’t relate to it?
- Exactly. – diz. – But also the whole scene involved with the type of music, do you know what I mean?
- Yeah, I guess so. First trance was too fast for me, than I got into it and the whole discovery of the psychedelic world amazed me, and the squat scene, and suddenly I got tired of it all, and had to go on to the next discovery.
- Which was? – pergunta ela.
- Well, punk, I guess. – respondo. – And equality, activism, anarchy, all that.
- Yeah, and then it doesn’t make any sense to go back, does it?
- No. – concordo. – Trance got a bit boring. And I also don’t think that those who start with punk will ever end up liking house. It’s almost impossible!
- Exactly, it’s like going back, isn’t it?
- I never really liked house. – digo-lhe. – I discovered music with the alternative scene.
- Yeah, house is like the absolute begin.
- And do you think the guys at the bar were conscious of themselves? - pergunto-lhe.
- No, they were like peacocks, just looking and showing themselves. – responde ela. – They were absolutely unconscious of almost everything!
- Yeah, their drive is merely sexual, isn’t it?
- Yeah, absolutely!
- I mean, there’s nothing wrong with sex, but people join and dance for other reasons too. – opino. - The trance scene, for instance, is really not sexual, it’s totally tribal, and people dance to get in touch with themselves, and the divine, and get a sense of unity... right?
- Yeah, that’s exactly it! – concorda ela. – And the punk scene is more about reality, and what’s going on in the world, politics, and so on.
- And the alternative scene would be about art and madness.
- There are so many scenes when you think about it! – exclama ela. – It’s mad, isn’t it?
- Well, actually, not really. What’s the basic need that makes people join and dance? – pergunto-lhe.
- It’s tribal, I suppose. – conclui ela. – The need to be together, don’t you think?
- I think it’s everything we've mentioned so far, and thus all the different scenes. – respondo. – But I don’t think the peacocks realize that by far!
- Yeah, you’re right, it’s everything, and we’ve been through it, and the peacocks are only beginning!
- If they ever get anywhere. – acrescento.
- So, is Shine coming, you think? – pergunta a Rose.
- Probably not. – respondo-lhe. – They are building rooms, because it’s getting so cold, and tonight they have electricity, so I guess they will be busy until as late as possible.
- They don’t normally have electricity?
- No. Nor water.
- That’s amazing! – exclama a Rose.
- What is? – pergunto-lhe.
- These kids from rich countries, who decide to live without water and electricity, in the freezing cold, to question the system and fight it and be free!
- Yeah. – concordo. – It’s like we’re going back to the roots.
- Yeah, but when you’re poor and need to survive, all you want is to have water and electricity. It's some kind of paradox, isn't it?
- Evolution turns back. The whole world is a paradox. – respondo. – I’m really proud of those kids!
- Yeah, I like this new generation. They’re better than my generation! – diz a Rose.
- Me too. – concordo. – They’re conscious of so much, aren’t they? And they are fighting and busy about a lot of things. They have the energy and the brains!
- I know!
- I can’t sit down anymore, Rose. – digo-lhe, por fim. – Why doesn’t anybody dance? They’re making me shy!
- Yeah, the music’s good, I don’t get it. I guess nobody wants to be the first.
- Oh, I can’t stand it anymore, my legs hurt from sitting!
Levantamo-nos. A música está realmente boa. Começo a esticar as pernas e os braços, pois doem-me, e a Rose principia a sua dança amalucada de sempre, com o toque da geração de fins de oitenta. E em cinco minutos todos os punks perdem a estranha timidez inicial daquela noite, e a pista enche.
Domingo, Março 06, 2005
GIL
The next summer my brother Levi became eighteen and left the house to go and live in Pérola’s old apartment with my cousin Rio. I was only fifteen, and couldn’t do much about it. It became really depressing living with my father, Pérola, and Eva. My sister was almost five, and she needed a room of her own, so my father asked Levi if he would like to share a place with Rio, who was his age, and Levi obviously loved the idea, so I was left alone. I asked my father plenty of times if I could move into my grandmother Matilde’s house, but he wouldn’t have it. He would let me have dinner there sometimes, and lunch, or even spend the weekend, but he wouldn’t let me move into her house. After all, he was my father, so I had to live with him, as he would put it. However, there were compensations for being fifteen, and I was allowed to go out with Marco and Sara. Not just out to the cinema or something, but really out, at night, until as late as I wanted. And they obviously took me to Subtil. However, I have to say, the place wasn’t as nice as Sara had described it to be. She had made me think that it was the coolest disco on Earth, but I didn’t even like the music. I told her, and she smiled and explained that things had changed, that my brother wasn’t playing such underground songs anymore, because the place had become prominently gay, and gays enjoyed other kinds of music. Nonetheless, I did have fun. I got drunk, I guess, and danced a lot. After a while I changed my mind about the place. There was something to it, and the more crowded it got, the better it became. Everybody seemed to be really cool, or well dressed, or something. Sara kept introducing me to people, and there was a certain mood to all of them. I felt protected, even though I didn’t know them. I felt well. Then I saw a guy that looked like Oto, but wasn’t. But he really looked like Oto, but it wasn’t him. Could it be him? No, it couldn’t. But it was him. Or was it the lights? And while I was looking and trying to understand if it was him or not, Andresa said something to Sara that included the name Gil. That’s all I heard from her sentence, mixed up with the music, but it was enough for me to remember that Oto and Noel’s younger brother, Gil, had also just returned from Macao. By that time, I guess I was really drunk, or else I don’t know what came over me, because I danced straight to him, stopped right in front of his face, smiling, and told him something like ‘So…. you’re Gil, I’m Lara, the very young one, nice to meet you. God! You’re even more beautiful then Oto! Well, gotta go now… bye!’ and left dancing again. He didn’t have a chance to say a word, and I didn’t even notice if he smiled or not. I was kind of blind, or possessed, or something. And, of course, I made the weirdest first impression.
Nonetheless, two days later, a Saturday, I went out with Sara again. She took me to a bar and we were drinking for a while, then she went to the toilet and I was alone when Gil suddenly came to sit in front of me at the table. He said ‘Excuse me, but I would like to ask you if you ever wondered what’s behind the mirrors’, to what I promptly replied ‘Well, I suppose it’s the opposite of what’s in front of them’. He contested ‘Ah! You see, but this way you would get a black reflection of yourself’. And I thought ‘Oh, come on…’ and replied ‘That’s just the reflection, that would be too obvious!’.
He smiled. Sara returned, said hello and gave him two kisses on the cheeks, and then told me she was going to get more drinks. ‘Está bem’, I replied, and off she went. Gil continued:
‘You have been reading Through The Looking Glass, haven’t you?’
‘Well’ I said ‘I have read it, yes, but not recently’.
‘Don’t you think you could possibly be under the influence of Lewis Carroll’s ideas?’
‘Well, yes… actually, you’re right; nonetheless, they make so much sense, don’t they?’
‘Some say they’re nonsense’ he replied.
‘Oh, well, that must be the perspective of the common sense, anyway’.
He smiled again, and asked:
‘Did you read the book in English or in Portuguese?’
‘Portuguese’.
Sara came back with the drinks and set down. She also brought a beer for Gil.
‘Ah, obrigada!’ he thanked her.
‘De nada’ she said. ‘You didn’t know each other yet, did you?’
‘We met two nights ago’ explained Gil ‘Lara introduced herself very eloquently’.
“Oh, God, I can imagine! Considering how drunk she was’ said Sara ‘She was so happy! How was your trip back from Macao?’
‘The usual. As soon as the plane took off, all the passengers started dancing’.
‘Well, guys, Andresa is here, I’m going to talk to her a bit, she’s with some friends’ informed Sara.
‘See you so’ I replied.
‘You should read the book in English’ said Gil.
I looked at him for two seconds, not understanding.
‘Oh, you mean Through The Looking Glass?’
‘Yes’ he replied ‘Did you know that Lewis Carroll was a mathematician?
‘Really? No, I didn’t know that’.
‘That’s why his books dealt so much with logic’ he explained.
‘Oh… maybe that’s why I find there’s some kind of magic in mathematics’.
‘Yes’ he agreed ‘There’s definitely some kind of magic in mathematics, and in every other science’.
‘Right. It’s like everything is connected’.
‘Precisely’ he concurred. And then he went on explaining how biology, geography, astronomy, astrology, philosophy, law, economy and literature were all connected. While he was talking, I was looking at him as if he wasn’t a person. I was dividing him into two different guys: Noel and Oto. He was blondish and had the same blue green pupils as Noel, but the shape of his eyes, his nose and his mouth were exactly the same as Oto’s. His voice had the same low tone as the voices from both his brothers, and his eyes were very hypnotic, just like Noel’s eyes. And then I noticed his way of dressing, which was not only entirely his own, but also quite unique in itself, or, should I say, totally retrograde. He wore very sober clothes, definitely unlike his brothers. No jeans, but old fashion pants extremely neat looking. No T-shirts, but an ironed stripy shirt with its collar coming out of the triangular throat jumper he wore on top. And no Doctor Martin’s or Chinese shoes, but shiny waxed Italian shoes. He moved very gentleman like, spoke very gentleman like, and his hair wasn’t up in the air like the hair of his brothers, it was parted on the side and absurdly combed to the extremities. Still, he looked quite astonishingly gorgeous in the midst of all his weirdness, like some kind of beautiful looking absolute nerd.
‘He found a door, you know’ he told me, after completing his monologue about science and it’s synchronicity with the universe.
‘Who?’
‘Lewis Carroll.’
‘Oh. Yes, well, not him, actually Alice did, didn’t she?’
‘Well, he did, and she was the door.’
‘Oh, yes, of course, I see what you mean’.
‘Through Alice, Lewis Carroll found the entrance to a world that allowed him to share his knowledge with the rest of us’ Gil explained ‘And maybe clarify some things to himself’.
‘Did you find your door yet?’ I asked him.
‘Yes’ he replied ‘My door is my trust in myself. Everybody else thinks I’m crazy, but I don’t think so, I know that only I can see things that no one else can see’.
‘How about your door to communicate with others, did you find that one yet?
‘No’, he answered. ‘Did you?’
‘No’.
‘Are you even close?’
‘I don’t know’ I replied ‘I’m writing a book, and I’m understanding worlds of new things through it’.
‘So you’re a writer…’ he commented.
‘Well, I suppose I am, because that’s what I do’.
‘What are you writing about?’
‘I’m writing about my dreams. I’m making them come true’.
‘What kind of dreams are you talking about?’
‘Daydreams’.
‘I see. That’s very interesting, Lara’.
‘How about you? What are you, Gil?’ I asked.
‘I’m a universal scientist’ he replied, smiling. ‘I’m researching life, the universe and everything’.
I smiled back at him. Sara returned and lovingly grabbed my arm:
‘Vamos’ she said ‘I’m going to Subtil and you’re coming with me, I can’t leave you here alone with Gil, you’re already weird enough as it is…’
She was smiling, but she meant it. Gil nonetheless got up and joined us, he didn’t give a shit about Sara’s opinion. He kept on talking to me all the way to Subtil. I must say we must have made a very peculiar pair, the two of us engaged in a never ending conversation, looking as different from each other as we possibly could. A tiny little miss weird with dark witchy clothes and a very messed up hair, walking down the narrow streets of the old Bairro Alto in army boots, accompanied by a tall nerd looking beautiful guy, bended to be able to talk to her, with ironed clothes, combed hair and Italian shoes. Yes, that was weird.
The next time I saw Gil was at a dinner party Noel was giving for his twenty-fourth birthday. Sara had taken me there and as soon as Gil spotted me he came to sit on the chair next to mine. This time he was wearing a tie, if you can believe it. He said:
‘I need your phone number’.
Not hello, how are you, just I need you phone number.
‘OK’ I replied, and so we went looking for a pen at the bar. I wrote my number down on a piece of paper with the words wine, coffee, main dish, soup, desert, bread and beverage printed on it. Gil seemed very happy just to see me. I must admit I kind of missed him too, although this was only a few days after we had last seen each other at Subtil. Sara had dragged me along with her to the dance floor, and Gil didn’t dance. He just stood there, on the side, smiling and drinking whiskey. When I looked around for him again he was gone.
‘What happened to you, the last time?’ I asked him, while we were heading back to the dinner table.
‘Oh, I had to go’ he told me ‘I didn’t want to impose myself on you too much’.
‘I see. That’s sweet’ I commented, and he smiled and put his hand on my shoulder. I remember looking down at the red carpet of the restaurant and feeling my knees go soft, and then I just remember opening my eyes and seeing a lot of faces staring surprisingly at me, with the lights from the ceiling shining behind them.
‘Lara!’ said Sara ‘Are you all right?’
‘Yes’ I replied, trying to get up, surrounded by helping hands. ‘I just fainted, that’s all’.
‘Just fainted?’ Sara asked ‘Do you suppose that’s normal?’
‘Yes. For me it’s normal. Let’s just eat, shall we?’
‘Are you sure you’re all right?’ Oto asked me.
‘Yes, Oto, I’m fine, I’m fine, I swear’.
Everybody was looking suspiciously at Gil, and he was just smiling. Actually, he looked as if he was going to burst into laughter, but just managed to control himself.
‘Let me take you outside to get some fresh air’ he proposed.
‘Great!’ I said ‘That’s exactly what I need!’
‘I’ll come with you’ said Sara.
‘No, really, I’m OK, Gil will take me outside’.
Sara consented, and Gil and I went out to the huge balcony of the building’s penthouse, where the restaurant was settled. We could see the old castle of Lisbon on top of a hill, and the moon above it, just like in the postcards. We could see the square of Martim Moniz, with the illuminated water fountain in the middle and the trams circling around it on their way to other squares. We could see the black people from the Portuguese ex-colonies who came to live in Lisbon hoping for a better life, hanging around the square, dressed in fancy clothes and distinguishing themselves from the boring Portuguese. We could see some prostitutes and a couple of transvestites going up to the neighborhood called Intendente, for their night work. I could see Gil with his tie and his outdated clothes looking at me with his hypnotic eyes and a persistent smile on his face, and I could picture myself looking very weird as usual, like some kind of mad dark creature who had just fainted at the touch of a hand on her shoulder.
‘What did happen to you in there, Lara?’ Gil asked me.
‘Oh, you know, reality is so much better than dreams’, I answered.
‘What do you mean?’
‘I’m not really sure’.
‘I see’ he said ‘Well, it doesn’t matter, anyway’.
‘Exactly’ I agreed ‘Let’s just eat, shall we?’
‘Yes’ he agreed, and into the restaurant we went. Nobody paid particular attention to us again, which was a relief, except, of course, for Gil’s aunt, who happened to be sitting next to me and him. I don’t know why, but she started talking to me as soon as I set down and she never stopped again for the rest of the dinner. She asked me all kinds of questions about myself but, most of all, she told me quite a lot about who she was. How she was born in Africa and was the sister of Gil’s mother, how she taught philosophy for many years, how she’d been to the Himalayas, how she lived in Macao, the small Portuguese ex-colony in China, how she took care of her nephews who were like sons to her, how she had two daughters of her own called Mónica and Dina, how she got divorced because men were not to be trusted, except, obviously, for her lovely and gifted nephews. She had a beautiful black Chinese dress with white flowers on, and her hair was also black and tied up with two Chinese sticks coming out of it. She looked very charming, and, for some reason, reminded me of Elis Regina, the best Brazilian lady singer of all times, as far as I’m concerned. Gil’s aunt finally asked me how old I was, I told her I was almost sixteen, and she replied:
‘You’re too young for him, dear’ and I though to myself ‘If you only knew that the one I like isn’t even the youngest’.
By this time Oto wasn’t in love with Sara anymore, and he already had another girlfriend called Luciana, who was older and reminded me of Jacquelyn Kennedy. She was about as much older than him as he was older than me, and there they were, together and happy. These were the moments when I really hated my life. As for Sara, I’m quite sure she was having some sort of affair with Andresa. It hadn’t been Oto who had broken up with her, it had been the other way around. Sara and Andresa now wore their hairs very short, were much skinnier because they had started smoking heroin, and were closer to each other than they had ever been before. Nobody could penetrate their jokes, their talks, their secrets. They were the absolute pair, and once Sara told me that one night, when they were very drunk, Andresa and her had French kissed.
‘Is my aunt Ágata bothering you?’ Gil asked me, when she left the table to go to the toilet.
‘Oh, no, she’s lovely’ I said ‘But she told me I’m too young for you…’
Gil smiled, and so did I.
‘Maybe we should be careful when we see each other’ he said ‘But I really don’t see why we shouldn’t be friends’.
‘Me neither’.
When his aunt Ágata came back, we stopped talking, and she went on about her life in the Portuguese ex-colonies of Africa. Me and Gil didn’t speak much for the rest of the night, and I went back home with Sara and Andresa.
Na Tentadora
Vivo duas vidas constantemente, o que é difícil, mas não consigo evitá-lo. Estou aqui sentada nesta dimensão, mas também na outra, e a cada momento vivo nas duas, para mencionar apenas estas, pois há mais. Sou a Lara e tento decidir o que se passará nessa outra dimensão, e enquanto não chego a uma conclusão não consigo descansar, esquecer-me, concentrar-me nesta existência física. Em determinados períodos, que vão e vêm, são mais os momentos em que sou Lara do que Alice, pois ser Alice aborrece, deprime, ou cansa. Mas ser Lara também cansa, nesta dimensão de Alice, enquanto penso e repenso a outra, para que quando a viva finalmente, fisicamente, já tudo esteja pensado, sentido e decidido, e possa viver em paz. São actividades mentais contínuas e expontâneas, ligo e desligo de um lado para o outro e nem ler consigo, pois ler obriga-me a permanecer numa dimensão, e apenas escrever ou contemplar me permite o allheamento que me faz viajar entre as duas.















